OLHARES SOBRE JOVENS

Abril 2012 - Os Jovens e a Internet

 

Ana Delicado (ICS-UL)
Nuno de Almeida Alves (CIES-IUL, ISCTE-IUL)



Os últimos anos do século XX e primeiros do século XXI foram indelevelmente marcados pela massificação do uso dos computadores e da internet1. De modo geral, o protagonismo da utilização dos computadores e da internet é sobretudo dos mais jovens, contribuindo desde início para o crescimento do uso destes meios. Por alguns chamados “nativos digitais”, em oposição às gerações mais velhas de “imigrantes digitais” (Prensky 2001), os jovens estão entre os utilizadores mais intensos e prolíferos das novas tecnologias.

Neste domínio, Portugal não foge à regra. Em menos de uma década a utilização das tecnologias de informação e comunicação (TIC) mais do que duplicou, tornando-se quase generalizada (90%) nos portugueses entre os 16 e os 29 anos. Tal resultou de um conjunto alargado de fatores: a descida dos preços dos equipamentos e das conexões de alta velocidade; políticas governamentais de distribuição gratuita ou venda a baixo preço de computadores e internet no âmbito dos programas e-escolas e e-escolinhas, que muito contribuíram para garantir a posse destes equipamentos a indivíduos e agregados cujos rendimentos o impediam; o próprio investimento das famílias em tecnologias vistas como indispensáveis para o sucesso escolar e profissional dos filhos. As estatísticas mostram que são as famílias com filhos aquelas que mais rápida e intensamente se convertem aos novos média e os trazem para dentro de casa (Livingstone e outros, 2008).

























A diferença entre a proporção de utilizadores mais jovens e mais maduros está claramente expressa no Gráfico 2, que compara a percentagem do total dos utilizadores da internet em Portugal independentemente da idade (51%) com a que é efetuada pelos utilizadores entre os 16 e os 29 anos (88%). É, no entanto, curioso que, mesmo entre os jovens, o efeito da idade na utilização do computador e da internet também se faz notar: os mais novos (16-19 anos) são claramente mais frequentemente utilizadores do que os mais velhos entre os mais jovens (20-24 anos e 25-29 anos).

























Mas será isto resultante do efeito idade? Passar-se-á o mesmo no resto da Europa? A resposta é sim e não. Nos países do sul da Europa, com grandes semelhanças com Portugal, sim; nos países do norte e centro da Europa não. Veja-se, por exemplo, os países selecionados no Gráfico 3. Quando se olha apenas para os valores registados nas camadas mais jovens, Portugal está rigorosamente na média europeia (93%), bastante acima da Itália (84%), um pouco abaixo da quase totalidade de jovens utilizadores da Internet no Reino Unido, Holanda e Suécia. Mas quando se olha para a diferenças entre gerações, em Espanha e Itália são tão ou mais acentuadas que em Portugal: as taxas de utilização na população jovem cifram-se em 95% e 84% respetivamente, na população adulta 78% e 64%, nos escalões mais velhos 28% e 24%. No Reino Unido, na Holanda e sobretudo na Suécia estas diferenças são muito mais atenuadas: a distância entre mais velhos e mais novos cifra-se entre os 34 pontos percentuais no Reino Unido e apenas 19 na Suécia.

























O que explicará então esta discrepância na utilização da internet entre jovens e mais velhos quando comparamos Portugal e o sul da Europa com o norte e centro da Europa? Serão os “nativos digitais” uma categoria restrita aos jovens nuns países e alargada a todos noutros países? A explicação residirá também no peso de um outro fator explicativo da frequência e uso da internet entre os indivíduos: a qualificação escolar. O que une o sul da Europa e o contrasta com o norte são as qualificações escolares médias das populações. No sul da Europa e em Portugal em particular as gerações mais velhas são francamente menos escolarizadas que no norte, sendo esse o fator que explica a menor utilização dos computadores e da internet no sul da Europa e especialmente entre os cidadãos maiores de 29 anos. Constata-se, assim, a associação positiva entre escolaridade e uso da internet, mais acentuada quando se toma em consideração a população geral (entre os 16 e os 74 anos) que quando se analisa a população jovem (16 a 29 anos) (Gráfico 4).

























Assim, num país em que 69% da população não foi além do ensino básico e que apenas 14% concluiu um curso de nível superior2, não é de estranhar que apenas metade da população utilize a internet. As camadas mais jovens, por um lado, são mais escolarizadas (na população entre os 25 e 34 anos 27% concluiu o ensino superior e 30% o ensino secundário) e por outro terão mais oportunidade de contacto com as tecnologias de informação, em contexto escolar, por exemplo. Ou seja, apesar do otimismo que o primeiro gráfico nos permite, o fosso digital existe ainda em Portugal e traça-se não só entre as gerações mas também entre as camadas sociais que dispõem de menos e mais capital escolar (vide Almeida et al 2011).



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
- Almeida, Ana Nunes de, Delicado, Ana e Alves, Nuno de Almeida (2011) "As crianças e a internet em Portugal: perfis de uso", Sociologia, Problemas e Práticas, 65: 11-37
- Livingstone, Sonia, e outros (orgs.) (2008), EU Kids on Line. Comparing Children’s Online Opportunities and Risks across Europe (relatório), Londres, LSE. (EU Kids Online)
- Prensky, Marc (2001), “Digital natives, digital immigrants”, On the Horizon, 9 (5), pp. 1-6.

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1 Muito incentivados por políticas nacionais e internacionais dedicadas a esse objetivo (ver, por exemplo, o plano de ação Ligar Portugal  e eEurope 2002-2005 e i2010. O seu intuito era o alargamento das redes de comunicação de elevado débito, possibilitando a utilização intensa e diversa da internet por toda a gama de públicos, desde o empresarial e profissional ao doméstico e familiar, visando o acesso de todos aos benefícios da informação e do conhecimento.

2 INE, Inquérito ao Emprego, 2011



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