OLHARES SOBRE JOVENS

Abril 2014 - A autonomização dos jovens: um retrato territorial

 



A autonomização dos jovens: um retrato territorial1



Cátia Nunes (Instituto Nacional de Estatística)


INTRODUÇÃO

O presente texto pretende abordar a temática da autonomização dos jovens em Portugal a partir de uma leitura dos dados censitários de 2011 e de 2001. Concretamente pretende-se traçar um retrato sobre a situação dos jovens face a esta questão em 2011 e perceber as tendências que se observam para a década de 2001 a 2011 a partir de uma análise dinâmica, procurando, simultaneamente, destrinçar diferenças nacionais e especificidades territoriais.

Uma das principais tendências que se tem vindo a observar no plano das famílias é o aumento do número de famílias clássicas unipessoais [Caixa 1]. Entre 2001 e 2011, a proporção de famílias unipessoais aumentou em todas as regiões do país, registando o total do país um aumento de 4 pontos percentuais. Em 2011, as regiões Lisboa, Algarve, Alentejo e Centro detinham as proporções mais elevadas, e acima da média do país (21,4%), de famílias unipessoais [Figura 1]. Por sua vez, as regiões autónomas e a região Norte apresentavam proporções abaixo do valor nacional.


fig 1 autonomizacao



fig 2 autonomizacao

































A AUTONOMIZAÇÃO DOS JOVENS


O entendimento da crescente relevância das famílias unipessoais passa por enquadrar este fenómeno no plano de outras dinâmicas populacionais e familiares que têm caracterizado a sociedade portuguesa ao longo das últimas décadas, como sejam, a consolidação da tendência de envelhecimento da população e da sua crescente longevidade, mas também a afirmação de estilos de vida centrados na construção de um espaço individual e independente relacionados particularmente com a construção de percursos autónomos da população jovem altamente qualificada (Mauritti, 2011). Adicionalmente, a expressão territorial destes fenómenos não se apresenta indiferente ao grau de urbanização dos territórios, já que os grandes centros urbanos têm sido identificados como as áreas de maior visibilidade desta questão, não só por deterem um tecido laboral mais dinâmico e inovador (André e Abreu 2006), mas também pela maior diversidade social e cultural que encerram.

No entanto, a questão da autonomização dos jovens [Caixa 2] pode, atualmente, refletir duas realidades divergentes. Por um lado, e associada a dinâmicas que se prendem com a valorização de identidades pessoais e a desestandardização e desinstitucionalização dos percursos de vida (Heinz e Krüger 2001), é possível identificar a construção de uma autonomia, não necessariamente assente na formação de uma conjugalidade (especialmente, por via do casamento), mas que se expressa na criação de espaços de vivência e de residência independentes dos progenitores (Pappámikail 2013). Por outro lado, a crescente tendência de adiamento da transição para a idade adulta tem-se refletido no prolongamento da coabitação com os pais e no consequente adiamento de outras etapas, nomeadamente, da conjugalidade e/ou da parentalidade (Ferreira e Nunes 2010). Mais recentemente, e dado o contexto de crise económica que tem afetado o país, tem sido possível também assistir ao fenómeno de regresso à casa dos pais, isto é, situações de dificuldade financeira conduzem a um retorno à coabitação com os pais2.


fig. 3 autonomizacao


















Deste modo, no que respeita ao processo de autonomização dos jovens, estas duas realidades, apesar de contrastantes, coexistem e revelam, globalmente, um incremento tendo por referência os resultados para os dois últimos recenseamentos. A proporção de pessoas entre os 18 e os 34 anos que constituem famílias unipessoais3 registou um aumento em todas as regiões do país, verificando-se em Lisboa e no Algarve os valores mais elevados em 2011: designadamente 8,4% e 7,5%, respetivamente, dos jovens residentes nestas duas regiões constituem famílias unipessoais [Figura 2]. Apesar de não fugirem à tendência de incremento, a região Norte (3,7%), e as regiões autónomas (3,7% na Região Autónoma dos Açores e 3,8% na Região Autónoma da Madeira) registavam as proporções mais baixas.


fig 4 autonomizacao



















No que respeita à proporção de filhos entre os 18 e os 34 anos que vivem com os pais4 [Figura 3], verificou-se um aumento, entre 2001 e 2011, para o total de país – de 45,7% para 47,0%. Ao nível regional, importa destacar que, ao contrário do que se observou relativamente à proporção de jovens que constituem famílias unipessoais, as regiões Lisboa e Algarve assinalavam os decréscimos mais expressivos e as proporções mais baixas. Em contraponto, a proporção de filhos entre 18 e 34 anos que permanecem com os pais superava, em 2011, a média nacional na Região Autónoma da Madeira e nas regiões Norte, Centro e Alentejo.

O retrato territorial por município da proporção de pessoas entre os 18 e os 34 anos que, em 2011, constituíam famílias unipessoais [Figura 4] permite associar valores mais elevados deste fenómeno a contextos municipais de cariz mais urbano, que se caracterizam não só pela maior dinâmica do tecido do mercado de trabalho, mas também pela maior diversidade social e cultural. Evidenciavam-se, assim, municípios da Área Metropolitana de Lisboa particularmente Lisboa, Oeiras, Amadora e Odivelas, Almada, Montijo, Sesimbra e Seixal; do Algarve, principalmente Faro, Albufeira e Portimão; e do Grande Porto, nomeadamente Porto, Matosinhos e Vila Nova de Gaia. A maior expressão de famílias unipessoais entre os 18 e os 34 anos era também observada num conjunto de municípios com cidades de média dimensão, nomeadamente capitais de distrito como Coimbra, Aveiro, Évora, Beja, Bragança, Leiria, Castelo Branco e Viseu. Nas regiões autónomas, os municípios que detinham as proporções mais elevadas de população entre os 18 e os 34 anos que viviam em famílias unipessoais eram o Corvo, as Lajes das Flores e Santa Cruz das Flores, na Região Autónoma dos Açores, e Porto Santo, na Região Autónoma da Madeira.

fig 5 autonomizacao
































Por outro lado, a segmentação territorial da proporção de filhos entre os 18 e 34 anos que vivem com os pais, e da respetiva evolução, é reveladora de um cenário territorial relativamente distinto já que os municípios que registavam uma variação negativa [Figura 5], e ao mesmo tempo, valores mais baixos em 2011, situavam-se principalmente na AML e no Algarve [Figura 6]. Por outro lado, é importante destacar que a tendência global que se observa para os restantes municípios do país é de um incremento do número de filhos entre os 18 e os 34 anos a viver com os pais. Os resultados evidenciam um conjunto de 185 municípios que registam um incremento acima da média nacional no período intercensitário em análise [Figura 5]. Em 2011, os 112 municípios que apresentavam proporções mais elevadas de filhos entre os 18 e 34 anos que vivem com os pais situavam-se no Interior Norte (como Vinhais, Terras de Bouro, Montalegre e Mondim de Basto), Centro (em especial, Oleiros, Manteigas, Proença-a-Nova e Alvaiázere), e Alentejo (particularmente em Barrancos, Mértola, Crato, Nisa, Marvão e Mora) e também na Região Autónoma da Madeira [Figura 6]. Salienta-se ainda os resultados observados para o município do Porto, que apesar de registar em 2011 um valor acima da média nacional, no que respeita à variação entre 2001 e 2011 aproxima-se do padrão verificado para a AML e o Algarve, contrariando a tendência registada em municípios circundantes, especialmente num conjunto contínuo que tem início nos municípios de Trofa e de Santo Tirso e que termina no município de Montalegre.

fig 6 autonomizacao




























NOTAS FINAIS

No que concerne ao processo de autonomização dos jovens foi possível verificar um incremento global, entre 2001 e 2011, da proporção de pessoas entre os 18 e os 34 anos que constituem famílias unipessoais nas sete regiões do país. Adicionalmente verificou-se um padrão municipal de maior incidência destes casos em contextos urbanos de municípios da AML, do Grande Porto e do Algarve, incluindo um conjunto de capitais de distrito, especialmente Coimbra, Aveiro, Évora e Beja. A segmentação da proporção de filhos entre os 18 e os 34 anos que vivem com os pais aponta para um cenário territorial distinto, ao diferenciar, com proporções mais elevadas, municípios da Região Autónoma da Madeira e do Interior Norte, Centro e Alentejo.




1Este texto foi desenvolvido no âmbito da publicação Retrato Territorial de Portugal – 2011 do Instituto Nacional de Estatística (www.ine.pt).

2Este fenómeno tem também sido designado como a boomerang generation (Parker 2012) para enquadrar os casos de jovens que regressam a casa dos pais na sequência de situações de desemprego ou de dificuldades financeiras.

3Proporção de pessoas entre os 18 e os 34 anos que vivem em famílias unipessoais: População residente entre os 18 e os 34 anos que vive em famílias unipessoais / População residente entre os 18 e os 34 anos x 100.

4Proporção de filhos entre os 18 e os 34 anos que vivem com os pais: População residente entre os 18 e os 34 anos que é filho e que vive com os pais / População residente entre os 18 e os 34 anos x 100



_____________________________________________________________________________________________________________


REFERÊNCIAS

André, Isabel e Alexandre Abreu (2006). «Dimensões e espaços da inovação social». Finisterra, XLI, nº 81: 121-141.

Eurostat (2009). Youth in Europe: A statistical portrait. European Commission.

Ferreira, Vitor Sérgio e Cátia Nunes (2010). «Les marqueurs de passage à l'âge adulte en Europe». Politiques Sociales et Familiales, 102: 21-38.

Heinz, Walter e Helga Krüger (2001). «Life Course: Innovations and Challenges for Social Research». Current Sociology, 49: 29-45.

Mauritti, Rosário (2011). Viver só. Lisboa: Mundos Sociais.

Pappámikail, Lia (2013). Adolescência e Autonomia: Negociações Familiares e Construção de Si. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.

Pais, José Machado (2001). Ganchos, Tachos e Biscates: Jovens, Trabalho e Futuro. Lisboa: Âmbar.

Pais, José Machado (1990). «A construção sociológica da juventude – alguns contributos». Análise Social, XXV, nº 105-106: 139-165.

Pais, José Machado e Vitor Sérgio Ferreira (Orgs.) (2010) Tempos e Transições de Vida: Portugal ao espelho da Europa. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.

Parker, Kim (2012). The Boomerang Generation. Washington, DC: PEW Social & Demographic Trends.


















  • Faixa publicitária
  • Faixa publicitária
  • Faixa publicitária

Contacte-nos