Seminários Mundos Juvenis - 19 de Novembro 2013

 

As manifestações recentes no Brasil: Juventude, Educação e Democracia

Fernando Tavares Júnior (Universidade Federal de Juiz de Fora)



Resumo:

Junho de 2013 trouxe consigo fato inaudito à sociedade brasileira: pela primeira vez ocorreram manifestações populares não tuteladas por partidos ou lideranças políticas tradicionais em defesa de direitos e de ideais republicanos. Cientistas políticos, lideranças partidárias, movimentos sociais tradicionais (como sindicatos, o MST e outros), todos foram tomados por um misto de surpresa, ameaça e impotência analítica. Fato é que em poucos dias, o Brasil se viu nas ruas. Apesar de estar em curso a Copa das Confederações, primeira etapa do ciclo de grandes eventos esportivos que culminará com as Olimpíadas de 2016, discutia-se política em toda parte, por todos (registre-se que a seleção foi campeã e a política manteve-se na pauta cotidiana). Reivindicações populares que se arrastavam há meses foram atendidas. Da Presidência da República aos Governadores e Prefeitos (das metrópoles ao interior), todos se mostraram acuados e responderam às ruas cedendo a praticamente todos os pleitos, reconhecendo a plena legitimidade das demandas e prometendo reformas, numa clara tentativa de minimizar perdas políticas e capitalizar sua imagem junto à população que não se sentia representa pelo atual sistema político. Quanto mais elevada a posição na hierarquia do poder, maior a resposta e proporcional o anseio de cooptação. Cabe ressaltar que este cenário foi antecedido por intensa repressão policial, proporcional à imensa impermeabilidade dos governos às demandas populares, em geral das classes trabalhadoras, mais especificamente urbanas e de status médio-baixo. O mesmo cenário tendeu a se reproduzir poucos meses depois, como se observa recentemente no Rio.

Os acontecimentos foram, de fato, originais, surpreendentes e históricos. No entanto, suas bases materiais não são novas e merecem atenção para adequada análise sociológica. Em especial, como em vários outros momentos da história social brasileira, a Juventude foi a principal protagonista do movimento, o qual liderou e catalisou forças e demandas coerentes e plurais. Tal como no período ditatorial, tal como na transição para a democracia e as "Diretas Já", tal como no "Impeachment", foram os jovens que vislumbraram as contradições de um modelo sócio-político de desenvolvimento em crise, empoderaram pautas específicas com conteúdo genuinamente moderno, republicano, social-democrata e de maneira sinérgica catapultaram uma luta específica em um processo global de questionamento social. No entanto, muito diferente de todas as experiências anteriores, foram os jovens que conduziram os movimentos, e suas manifestações, de maneira autônoma e em grande parte negando e criticando as lideranças tradicionais e seus aparatos institucionais, como os partidos políticos.

Occupy Wall Street, a Juventude à Rasca, Los Indignados, a Primavera Árabe e vários outros movimentos sociais contemporâneos tem características semelhantes, como a liderança dispersa, a mobilização via novas tecnológicas, em especial redes sociais, o papel de jovens diplomados de classe média que não encontram na sociedade a realização das promessas deste modelo capitalista claudicante. No entanto, embora haja pontos de contato, não se trata de algo único, mas manifestações de uma sociedade global em transformação, que encontra em cada realidade, em cada país, formas de expressão ao mesmo tempo genuínas, únicas, originais, e também miméticas em seus dramas e modos de ação. Este trabalho é fruto das reflexões do Grupo de Estudos em "Desigualdades, Políticas e Educação" do Instituto de Ciências Humanas da UFJF em torno do acompanhamento próximos dos eventos que marcaram 2013. Em especial, evidenciam-se as bases materiais que marcaram as recentes transformações sociais no Brasil e sua relação com as manifestações, seus atores, suas demandas, seu modus operandi. Somam-se a essa reflexão interpretações do contexto brasileiro, sua história e seu estilo societário, em diálogo com reflexões lusófonas. Compreender o Brasil contemporâneo só é possível a partir de sua contextualização na América Latina, com seus ciclos e modelos de desenvolvimento, bem como em relação à cultura política e formação social, típicas da Ibéria. Por fim, enquanto ensaio, sugerem-se argumentos de interpretação sociológica para o que está em curso no Brasil, bem como o papel que a Juventude tem assumido nas transformações sociais e políticas recentes.



Fernando Tavares Jr é Doutor em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ / 2007), graduado em Psicologia e mestre em Gestão de Sistemas da Educação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e Pedagogo (UFV). Atualmente é Prof. Adjunto do Dept de Ciências Sociais da UFJF, Coordenador de Projetos do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (CAEd) e do Observatório da Educação (OBEDUC/CAPES): "Determinantes do Sucesso Educacional no Brasil". Especialista em Metodologia de Pesquisa e Sociologia da Educação, coordenou entre 2005 e 2008 a Avaliação do Programa Nacional de Inclusão de Jovens e em 2009 foi consultor do PNUD / ONU junto à Secretaria Nacional de Juventude. Suas publicações dedicam-se principalmente aos seguintes temas: Estratificação Social, Avaliação e Gestão da Educação Pública e Avaliação de Políticas e Projetos.


  • Faixa publicitária
  • Faixa publicitária
  • Faixa publicitária

Contacte-nos