OLHARES SOBRE JOVENS

Janeiro 2012 - (Des)emprego Juvenil

 


(Des)emprego juvenil: renovação de um fenómeno persistente


Lia Pappámikail (ESE-IPS) e Jussara Rowland (ICS-UL)



Muito embora todas as faixas da população sejam afectadas pela vulnerabilização no mercado de trabalho e pelo aumento da taxa de desemprego, a situação da «juventude» têm merecido particular destaque no espaço público. A visibilidade de alguns protestos protagonizados pelos «jovens», alguns seguindo a linha de movimentos globais de contestação aos modelos de organização social e económica vigentes no mundo ocidental, vieram amplificar as «preocupações» com as gerações mais novas e com as suas efectivas possibilidades de construírem os seus percursos de vida assentes em mecanismos vigentes na geração anterior como o emprego estável e a protecção social. Mais, a taxa de desemprego recorde registada no 3º trimestre de 2011 para o grupo dos 15 aos 24 anos (30%) – para o grupo subsequente (dos 25 aos 34 anos) a mesma taxa e no mesmo período fixava-se nos 13,1 pontos percentuais – em muito contribuiu para sublinhar as particulares  dificuldades que (alguns) dos jovens enfrentam quer à entrada, quer na sua manutenção no mercado de trabalho.


















Qualquer análise acerca da condição juvenil e a sua relação com o mercado de trabalho implica, porém, que se perceba quem são, efectivamente, os 30% de jovens desempregados de que nos dão conta os mais recentes dados publicados pelo INE.
Com efeito, é preciso notar que o aumento expressivo das taxas de escolarização dos jovens portugueses nas últimas décadas, que permitiu aliás um alargamento da escolaridade obrigatória até aos 18 anos, se traduz numa equivalente retracção das taxas de actividade no mesmo grupo considerado pelo INE (15-24 anos) que, em 2010, se fixaram nos 36,7 pontos percentuais, por contraste com os 90,2% do grupo subsequente (25-34 anos).

Uma análise mais fina recorrendo a cortes etários mais reduzidos revela ainda que dentro do escalão dos 15 aos 24 anos é o grupo do 15 aos 19 que mais contribui para essa redução ao apresentar, em 2009, uma taxa de actividade de apenas 14%, com correspondente taxa de desemprego nos 27,3%, enquanto o grupo dos 20 aos 24 anos apresenta uma taxa de actividade que ultrapassa os 60 pontos percentuais (62,9%) com o desemprego a atingir os 18% no mesmo período.























Isso significa que os 30% de desemprego juvenil correspondem a cerca de um terço dos jovens entre os 15 e os 24 anos que estão no mercado de trabalho, que por sua vez constituem «apenas» um pouco mais de um terço dos jovens portugueses naquela faixa etária (pelo facto de a maioria dos jovens até aos 24 anos ainda ser estudante). Esta realidade tem particular incidência para o grupo dos 15 aos 19 anos, onde há relativamente poucos activos, mas onde a taxa de activos desempregados é muito elevada. De referir que, embora o número total de indivíduos desempregados possa ser mais reduzido em número e expressão do que uma leitura desatenta poderia fazer supor à primeira vista, o facto de 30% dos jovens activos entre os 15 e os 24 anos estarem sem emprego não deixa de ser preocupante, sobretudo se tivermos em conta que se trata de um valor duas vezes mais elevado do que a taxa verificada para a população em geral. Um fenómeno que abarca uma multiplicidade de situações sociais, num momento marcado pela retracção que se tem verificado na protecção no desemprego para os mais jovens (nomeadamente ao nível da limitação das condições de acesso e da duração do subsídio de desemprego).

Efectivamente, as notícias recentes que nos dão conta dos valores registados ao nível do desemprego juvenil, da fragilidade dos vínculos laborais e dos patamares salariais auferidos pelos mais jovens não deixam de espelhar uma particular vulnerabilidade que se abate sobre este grupo social, em pleno processo de trânsito rumo àquilo que se designa de «vida adulta».  Ainda que os valores do desemprego decresçam significativamente no grupo etário dos 25-34 anos, a verdade é que, pensando nos jovens que afirmam ter um emprego, pouco nos informa da sua natureza em termos qualitativos, nomeadamente, acerca da natureza do vínculo, adequação das funções à formação, remunerações, etc., nem tão pouco como a experiência da «precariedade» é vivida e perspectivada pelos jovens. Tal como Pais (2001) alertava, o fenómeno do subemprego entre os jovens é um fenómeno que deve ser considerado na abordagem ao (des)emprego juvenil, pois a ambiguidade de algumas das situações laborais comuns entre os jovens contemporâneos não está espelhada nas categorias estatísticas disponíveis para analisar o fenómeno.

Outro aspecto importante a tomar em consideração, e que não raras vezes tem sido mencionado nos media com alarme, está justamente relacionado com a percepção colectiva da transformação na distribuição dos jovens desempregados por níveis de escolaridade.





















O que os dados nos indicam é que sobretudo nos últimos anos (e precedendo a crise de 2008), grupos sociais  que anteriormente estavam relativamente protegidos do desemprego são cada vez mais protagonistas da incapacidade de se manter e/ou voltar a um mercado de trabalho volátil e competitivo. É certo que os níveis de qualificação escolar da população jovem actuais fazem com que os licenciados representem hoje uma proporção muito maior dos jovens ativos (nos escalões etários acima dos 21 anos – idade mínima para completar uma licenciatura pós-bolonha), estando por isso mais expostos às dinâmicas do mercado de trabalho, quaisquer que elas sejam. A grande diferença prender-se-á com o facto de o princípio (ou promessa)  do diferimento das recompensas, inerente ao investimento numa escolaridade longa, pressupor que este investimento seja premiado com vantagens no mercado de trabalho, para não falar das  (legítimas) expectativas de realização de si através de um emprego compatível com a formação/vocação que subjazem a todo o processo de escolarização. Serão, também,  grupos cuja visibilidade social contribui mais fortemente para a difusão de um sentimento de vulnerabilidade e de incerteza generalizadas face ao futuro. Note-se, porém, que o destaque atribuído ao «problema do desemprego dos licenciados»  acaba relegando para segundo plano situações persistentes de fragilidade social de alguns grupos sociais específicos, nomeadamente aqueles que apresentam uma  crónica dificuldade de inserção no mercado de trabalho como os jovens menos qualificados.


Assiste-se, portanto, de um processo de transversalização dos «problemas» de alguns grupos juvenis o que pode, potencialmente, contribuir para alguma consolidação da sua identidade colectiva enquanto grupo social. Saliente-se, para terminar, o facto de as séries temporais mais detalhadas disponíveis terminarem em 2009 o que, dada a velocidade com que a crise socio-económica global se tem instalado no país, pode significar que estas tendências tenham sofrido um agravamento. Do ponto de vista analítico torna-se, pois, premente uma monitorização constante dos dados sem no entanto perder de vista o alcance das transformações de cariz mais estrutural que uma leitura das séries temporais mais longas nos permite realizar.



Referências:
Pais, José Machado. 2001. Ganchos, tachos e biscate. Lisboa: Âmbar.

  • Faixa publicitária
  • Faixa publicitária
  • Faixa publicitária

Contacte-nos