OLHARES SOBRE JOVENS

Dezembro 2011 - Idadismo em Relação aos Jovens

 


O idadismo em relação aos jovens nos países europeus


Sibila Marques

(Investigadora em Pós-Doutoramento no Centro de Investigação e de Intervenção Social do ISCTE-IUL; Professora Convidada do ISCTE-IUL)


A idade é um importante marcador social que nos permite classificar os indivíduos em diferentes grupos, atribuindo-lhes diferentes estatutos e papéis. A maioria das sociedades divide o curso de vida em pelo menos três categorias ou mais. Esta divisão é útil porque nos permite saber o que esperar dos membros dos diferentes grupos etários com quem nos relacionamos. À medida que vamos envelhecendo, passamos pelas diferentes categorias etárias e devemos apropriarmo-nos das normas e papéis inerentes a cada categoria. No entanto, apesar da sua utilidade, esta classificação por idades também acarreta alguns custos. A categorização homogeneíza o modo como percebemos os membros de um determinado grupo e está na base da utilização de preconceitos e estereótipos em relação a esse grupo.

Alguns estudos têm mostrado a prevalência de atitudes negativas em relação ao grupo dos jovens. Este idadismo é visível não só no modo como este grupo é percebido pelos outros membros da sociedade mas também na forma como os membros do grupo percebem a sua própria pertença.

Os dados do European Social Survey, realizado em 2008/2009 em amostras representativas de vários países europeus mostram, por exemplo, que o grupo dos jovens é sempre percebido no geral como um grupo de menor estatuto social do que o grupo das pessoas de meia-idade (Fig 1). No entanto, esta percepção do estatuto social dos jovens parece estar associada a uma representação ambivalente deste grupo etário, que é percebido igualmente com "admiração" e "inveja" (Fig 2).




























































Quando questionadas sobre as principais ameaças percebidas por parte dos jovens, os inquiridos nos vários países europeus referem sobretudo uma preocupação elevada com a criminalidade e com a preferência dos empregadores por trabalhadores mais jovens. No entanto, é também de referir que uma percentagem significativa dos inquiridos receia também o facto dos jovens terem um contributo pouco significativo para a economia do país (Fig 3, 4 e 5).




























































Esta forma ameaçadora como os jovens são percebidos nos vários países europeus parece ter também alguma expressão nas experiências de discriminação reportadas pelos próprios jovens. Os resultados do European Social Survey mostram que são os inquiridos entre os 15-24 anos aqueles que referem mais experiências de discriminação devido à idade. De facto, 55% dos jovens neste grupo etário indicam já terem sido tratados com falta de respeito devido à sua idade e 41% referem mesmo já terem sido de facto maltratados de forma mais flagrante (Fig 6 e 7).




































Quando se comparam as experiências de discriminação sentidas pelos jovens nos diferentes países inquiridos verificamos que existem algumas diferenças, com a Finlândia, a Suécia, a Holanda, a Noruega e a Dinamarca a encabeçar a lista daqueles em que pelo menos 70% dos jovens entre os 15 e os 24 anos referem ter sofrido algum tipo de discriminação devido à sua idade durante o ano anterior ao inquérito (Fig 8).




































O caso português


Em Portugal os jovens são vistos como um grupo de baixo estatuto social, inferior ao grupo da meia-idade e semelhante ao grupo das pessoas idosas. É um grupo percebido com mais admiração do que inveja, embora nenhuma destas avaliações tenha uma grande expressão. Apesar destas avaliações moderadas, Portugal apresenta-se como o país onde existe uma maior percepção de ameaça dos empregadores preferirem dar o emprego aos jovens com 20 anos em vez de o darem a uma pessoa com 40 anos. Realça-se ainda que mais do que 50% dos portugueses referem algum receio relativo às práticas de criminalidade por parte dos jovens.

No entanto, esta percepção de ameaça por parte dos jovens não parece ainda manifestar-se muito fortemente em termos comportamentais, já que Portugal se apresenta como o país onde os jovens entre os 15-24 anos declaram menos episódios de discriminação no último ano. Ainda assim é importante realçar que 23% dos jovens neste escalão etário indicaram terem sido tratados com falta de respeito e 17% referiram mesmo terem sido maltratados devido à idade no período do ano anterior ao inquérito (Fig 9).




















O preconceito e a discriminação em relação aos jovens assume neste momento uma expressão elevada nos países europeus e deve, sem dúvida, ser tida em consideração e promover a criação de medidas políticas adequadas para lidar com esta situação. A discriminação face à idade atenta contra direitos humanos fundamentais e deve ser combatida nas suas diversas expressões. Neste momento, a atenção política tem estado mais centrada no combate ao idadismo contra as pessoas mais velhas (veja-se a título de exemplo o documento europeu de 2006 “The demographic future in Europe: from challenges to opportunities” http://europa.eu/legislation_summaries/employment_and_social_policy/situation_in_europe/c10160_en.htm). No entanto, é inquestionável a necessidade de medidas semelhantes que permitam combater o idadismo contra os mais jovens.

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