OLHARES SOBRE JOVENS

Fevereiro 2015 - Jovens, jornalismo e participação

 

Jovens, jornalismo e participação: Estudo de caso em Portugal

Por Maria José Brites (CECS, ULP)


Numa sociedade onde o jornalismo parece encontrar-se numa encruzilhada de dificuldades e onde os jovens são frequentemente apontados como estando afastados do jornalismo e da participação, é importante compreender os contextos destas proposições e também questioná-las, até porque a realidade é matizada.

A pesquisa que passamos a apresentar centra-se no cruzamento entre o jornalismo, a participação e as culturas cívicas juvenis (Dahlgren, 2009). Numa era de interrogações sobre Democracia, quisemos saber Qual o papel das notícias na construção da participação (cívica e política) ao longo do tempo? A ideia de partida centrava-se na oportunidade de perceber em que contextos e de que forma estes elementos complexos (jovens, jornalismo e participação nas suas multidimensões) se cruzavam e como é que isso poderia possibilitar leituras (diferenciadas) do quotidiano desses jovens.

O consumo de notícias em geral, de notícias de política e as formas de participação constituíram elementos base de análise, muito embora nos tivéssemos preocupado ainda com propostas que os jovens fizeram para se ligarem ao jornalismo e à participação e com as razões que desmotivam a participação (Brites, 2014, 2015).

Procurámos perceber de que forma os 35 jovens que constituíram o corpus se interessavam ou não pelas notícias, por que tipo de notícias e em que circunstâncias. Além disso, e também em paralelo, quisemos compreender de que forma isso se cruzava com formas diferenciadas de participação em sociedade, incluindo participação convencional, como pertencer a partidos políticos, ou não convencional, como produzir músicas ou graffiti.

Este estudo socorreu-se de metodologias tradicionais, mas também de propostas não tradicionais em que os participantes passaram a ser sujeitos de pesquisa (Mathieu & Brites, 2015). Esta opção facilitou a participação e a reflexão dos jovens que constituíram a amostra na pesquisa e fazia todo o sentido como ponto de partida, tanto mais que o estudo se centrava nos eixos das notícias e da participação, na confluência de um mundo em que as redes digitais também facilitam a ação dos públicos.

Esta abordagem passou pela utilização de entrevistas semiestruturadas e grupos de foco, que, sobretudo em 2011, funcionaram também como momentos em que os participantes foram convidados a participar em várias partes da investigação. Trouxeram elementos para a discussão, refletiram sobre a investigação e as suas diferentes etapas e atuaram como quasi-pesquisadores.

Muito concretamente durante as segundas entrevistas (2011) foi solicitado que contribuíssem ativamente para a discussão recolhendo exemplos de notícias, conversas, ou outros materiais que julgassem relevantes, sobretudo tendo como mote a cobertura da campanha para as eleições presidenciais de 2011, que tinha decorrido dias antes.

Nos segundos grupos de foco (2011) exploraram o potencial da pesquisa participatória, subjacente à ideia de considerar que jovens a pesquisar jovens contribuiria para dar a conhecer o que poderia ter escapado à pesquisa mais tradicional; deste modo considerámos os participantes como quasi-pesquisadores. Ou seja, foi-lhes pedido que colocassem questões (dentro do âmbito da pesquisa) a jovens sobre temas debatidos durante os primeiros grupos de foco. A ideia era que os segundos grupos de foco servissem para expor e comentar esses projetos exploratórios conduzidos por eles mesmos. Embora de forma exploratória, a intenção implícita foi criar espaços de debate e de reflexão.

Notas metodológicas

A amostra inicial foi constituída por 35 jovens (32=15-18 anos; 1=14 anos; 2=21 anos; 16 raparigas e 19 rapazes), com graus/níveis e tipos de participação muito diferenciadas (Parlamento dos Jovens, assembleia de bairro, juventudes partidárias, jornais escolares, graffiti, música). Estes são os exemplos de participação pelos quais foram escolhidos, embora depois se tenha verificado a existência muitos outros modos de participação. Estes jovens possuem backgrounds familiares, educacionais, culturais e económicos muito diversos e também competências individuais diferenciadas. Neste estudo qualitativo e longitudinal (2010-2011) foi feita observação direta, duas fases de entrevistas semiestruturadas (em 2010=35 jovens; em 2011=30 jovens) e duas fases de grupos de foco (grupos de foco tradicionais=15 jovens; grupos de foco participatórios=10 jovens).

Resultados e perfis

Através da leitura dos cinco perfis constituídos (com base no consumo de notícias gerais, de notícias de política e nas formas autorreportadas de participação), verificámos que o jornalismo continua a ter preponderância muito diferenciada junto dos jovens, também fruto dos contextos de participação, dos backgrounds familiares e das vontades pessoais. O discurso simplista da geração digital é mais retórico do que efetivo e pode camuflar realidades, desinvestimentos e carências profundas de literacia cívico-mediática. O cerne das necessidades e da intervenção está na sociedade e não na tecnologia. Mas a tecnologia, aliada a formas de intervenção e de participação, pode facilitar modelos de resiliência (ao longo do tempo) mesmo junto de jovens que vivem em contextos desfavorecidos.

Além dos capitais económicos e culturais, são fundamentais os sociais e cívicos, que podem também estabelecer alavancas de empoderamento, capazes de fomentar consumos e participação. Demos conta de que a família se constituiu como instituição relevante no que toca a potenciar os consumos informativos e de que a escola teve papel importante no fomento da participação. De notar ainda que outros elementos de sociabilidade foram relevantes, como os amigos e os colegas. Esferas sociais mais alargadas só se evidenciaram junto de uma minoria de jovens com maior consumo de notícias e de participação.






















Participantes ocasionais e pouco informados (perfil 1)
















Neste grupo (N=5; F=2, M=3; Idade: 3=15, 1=17, 1=18), identificámos jovens com um consumo limitado de informação noticiosa. No contexto familiar nota-se uma escassez de discussão sobre notícias e nos casos em que ela existe é muito centrada na orientação para saber evitar o perigo que ameaça o bem-estar pessoal (desastres, acidentes, doenças). Ou seja, as notícias servem em certa medida para alertar para perigos/riscos que podem surgir e ao mesmo tempo satisfazem essa curiosidade pelo perigo/desconhecido. Centram-se na prevenção do perigo/risco e num certo fascínio pelas estórias cor de rosa.

As notícias de cariz político são escassas e, quando referenciadas, estão associadas à televisão ou são evocadas através de conversas familiares, sobretudo tidas entre adultos, estando reservado aos jovens o papel de ouvinte. O debate aprofundado e alargado sobre notícias de política está algo afastado do dia a dia destes jovens, sendo tido como um domínio que até chega a ser evitado no contexto familiar. Os adultos conversam entre si e os jovens ouvem ou assistem. A televisão, apesar de não ser um meio predominantemente informativo para estes jovens, tem um papel de relevo ao informar sobre assuntos que de outra forma não seriam percepcionados, cabendo à internet outras funções.

"– Vasco: Eu é assim... para ver televisão, temos de certa maneira... temos vários tópicos sobre o dia a dia...

Rute: E é mais barato..." (Grupo de Foco 1)

As notícias são obtidas sobretudo através dos meios tradicionais, notando-se uma diminuição destes em comparação com a internet de 2010 para 2011.

Em todo o caso, importa reforçar que esta escassez de debate sobre notícias e política em contexto familiar e até do consumo de media como a televisão não deve ser negligenciada ou menorizada, pois de outra forma o afastamento destes jovens em relação às notícias e às notícias políticas seria maior. A família e a televisão são importantes caixas de ressonância destes assuntos.

Contactados inicialmente pela sua participação numa dada atividade cívica, ao longo do tempo não se verifica uma continuidade dessa participação, nem sob outras formas. Possuem baixa participação e, quando essa participação aconteceu, foi algo forçada pelas circunstâncias com as quais se depararam.


Participantes e consumidores emergentes (perfil 2)
















Neste perfil (N=10; F=6, M=4; Idade: 6=16, 3=17, 1=21), há uma transversalidade dos seguintes indicadores: a televisão é um meio preferencial (embora nem sempre exclusivo) no que respeita ao consumo de notícias e o jornalismo televisivo é considerado basilar do ponto de vista da democracia. Isto porque consideram que a televisão é o meio que chega a todos (crianças ou idosos, interior ou litoral) e fundamental para saberem o que se passa no mundo. Esta tendência verifica-se em 2010 e em 2011, apesar de em 2011 a internet também ter sido referenciada como media relevante para consumo de notícias.

"– A televisão [media sem o qual não consigo viver]. É um meio mais interativo, é aquela sensação de familiaridade, de estar a visionar e a ouvir a pessoa, é a questão da proximidade. A televisão é aquela que aconchega mais." (Paula, Entrevista 1)

No que concerne à informação política, a televisiva é a opção selecionada pelos participantes. É um tipo de informação debatida no espaço familiar e também junto do grupo de amigos, sobretudo no contexto da escola. As potencialidades que a escola fornece mostraram-se fundamentais para incentivar estes jovens no consumo de notícias e também na participação.

Relativamente à participação, ao longo do estudo este grupo é mais sólido do que o anterior, tanto em termos de diversidade de atividades de participação como do seu reforço ao longo do tempo. As atividades de participação, ainda assim, estão muito ligadas às oportunidades que a escola proporciona (Parlamento dos Jovens, jornais escolares, conversar com colegas, votar na AE), como já tínhamos indicado.

Participantes alternativos e cidadãos online (perfil 3)

















Como se pode ver através deste quadro, este grupo (N=6; F=5, M=1; Idade: 1=14, 1=16 1=17 2=18 1=21) é composto por jovens que têm a internet como principal media. Além disso, confrontam a legitimidade das notícias no atual ecossistema, que não fornece a informação específica que eles procuram.

"– Sim. Faço pesquisa na internet [sobre ativismo]. O problema que encontro na televisão é que, se dão programas, não dão nos horários em que eu posso. Assim opto pela internet. Se estiver à procura de um assunto sobre o racismo pesquiso sobre isso.

– Mas tens mais facilidade em encontrar esta informação que te interessa na internet ou nos media tradicionais?

Na internet. Bem, também é aquela falta de interesse em procurar em livros, temos ali aquela enciclopédia enorme que podemos aceder num instante. Por isso, cada vez menos procuramos nos media tradicionais." (Tânia, Entrevista 1)

"[a internet] É como café. Bebe-se um café, bebe-se outro e depois queremos outro. Torna-se um vício." (Cândida, Entrevista 1)

Gostam de notícias sobre temas que lhes interessam particularmente (atividades artísticas e ONG) e que revelam uma vontade de mudança na forma como a política se reflete no quotidiano em que se vão movimentando. O consumo e o interesse pelas notícias está intimamente relacionado com as necessidades de participação, que também não se compadecem com uma visão restrita e tradicional da mesma.

De 2010 para 2011 reforçaram atividades de participação e quase todos preservaram as atividades que mais os interessavam. Os interesses de participação são diversificados, e muito associados a vantagens coletivas (por exemplo, o vegetarianismo como favorecedor de um melhor ambiente e da preservação dos animais, o ativismo em ONG como forma de ajudar o outro ou a cultura como forma de interesse de uma determinada comunidade).

Participantes politicamente engajados e informados (perfil 4)


















O quadro acima resume bem este grupo (N=7; F=3, M=4; Idade: 2=15, 2=17, 3=18) ao apresentar, em contracorrente face aos outros, os seus representantes como sendo consumidores e participantes intensos e diversificados. Eles mesmos assumem-se como uma minoria, em contexto de uma maioria menos interessada no jornalismo e na participação. Aqui encontra-se o conjunto de jovens que mais evidenciou apreciar a informação e concomitantemente ter uma vontade intensa de participar e executar ações em prol da comunidade, a nível local ou central e com diferentes tipos de participação (convencional e não convencional).

Demonstram diversidade de consumo noticioso, através de vários media, desde os tecnológicos (televisão, jornais de referência, internet) até às relações sociais desenvolvidas com os amigos, os familiares e outras pessoas, algumas desconhecidas deles. Estar informado é uma forma de estar.

"A informação é a base de tudo. É poder. Ter informação é estar à frente, é ter vantagem" (Joaquim, Entrevista 1).

Todos os jovens que fazem parte deste perfil pertencem a partidos políticos (e/ou juventudes), todos têm uma preocupação alargada por formas de participação com repercussão na sociedade e direta nos cidadãos. Verifica-se uma continuidade nas formas de participação, quer mantendo as de 2010, quer substituindo as que não se mantiveram. A política é sentida nas suas múltiplas dimensões e a discussão da informação política é alargada.

O ciclo social da informação sai, por isso, reforçado. Tudo isto acontece com a prevalência de capitais cívicos acumulados (com forte referência ao apoio na família – sobretudo pais e/ou avós). Não são apenas consumidores, mas também produtores de conteúdos. De uma forma transversal, verifica-se um interesse por ser agente na sociedade.

De forma transversal, beneficiaram sobretudo de um ambiente cívico (em família, na escola e junto dos diferentes círculos em que se movimentam, assim como na sua vontade pessoal) que facilitou e facilita contactos/ambientes que propiciam capitais cívicos, existentes de forma independente do capital económico.

Participantes e consumidores em torno de um projeto do Eu (perfil 5)













Neste grupo (N=7; F=0, M=7; Idade: 1=15, 2=16, 3=17, 1=18), verificou-se uma valorização do interesse pessoal em comparação com o coletivo. As escolhas, quer da informação quer da participação, evidenciavam esta necessidade de satisfação própria. Estão tendencialmente concentrados numa perspetiva de construção autocentrada nas suas vontades e interesses. Um dos dados que ressalta do grupo é o facto de ser constituído apenas por rapazes.

O consumo de informação é muito diversificado (media usados, incluindo as relações sociais de proximidade, e temas), muito de acordo com a necessidade que sentem de corresponder aos seus interesses. Este grupo tem como denominador comum a quase todos uma elevada autoestima e o curiosidade pelo meio que os rodeia e em informação específica, sem que pensem essencialmente no bem comum, mas sobretudo em interesses pessoais diversificados.

"– [a informação] Sou eu mesmo [ri-se] é uma questão de personalidade, mais do que a ajuda dos mais pais e amigos, eu agora só me sinto bem ao estar informado. Saber que quando falo, falo direito, segundo o que acredito e sei, de contrário mais vale estar calado." (Simão, E2)

Não são apenas consumidores, mas também produtores de conteúdos mediáticos, em diversas plataformas (MySpace, Facebook, entre outras), onde mostram e tentam adquirir visibilidade para as suas capacidades, designadamente artísticas e intelectuais. Quase todos já tinham aparecido nas notícias, o que valorizaram, mesmo quando isso decorreu do acaso.

"– Apareci uma vez [nas notícias], [ri] por sorte, mesmo! Foi nessa visita de estudo que fui ao Parlamento, estávamos à porta do Parlamento e estava a haver uma manifestação, fomos lá ver. Ao mesmo tempo que fomos ver os cartazes, e fomos embora e tivemos a sorte de a câmara nos filmar.

– Sorte por que motivo?

Porque foi no momento que passámos e que por sorte filmaram e aparecemos na televisão." (Fausto, E1)

Notas finais

Estes cinco perfis indicam que as questões relacionadas com os jovens, o jornalismo e a participação são bem mais complexas do que a identificação entre jovens, não gostar de notícias e não quer participar. O facto de o estudo ser longitudinal (ainda que com um curto período de dois anos) e de se ter optado por envolver os jovens na pesquisa muito para além do que tradicionalmente se tem feito na investigação nas Ciências da Comunicação em Portugal, aponta para uma necessidade de se aprofundar o assunto.

Deixamos aqui algumas pistas possíveis de investigação: a) perceber melhor a relação entre notícias e participação, tentando evidenciar pontes entre literacia cívica e mediática; b) compreender melhor os contextos de consumo e de produção noticiosa; e c) fazer um estudo aprofundado sobre literacia para as notícias em Portugal, junto de jovens e seus contextos.

Bibliografia

Brites, M. J. (2015). Jovens e culturas cívicas: Por entre formas de consumo noticioso e de participação. Covilhã: Livros LabCom. ISBN: 978-989-654-199-6

Brites, M. J. (2014). "Consuming the news and building civic participation", Participations. Journal of Audience & Reception Studies, 11: 130-149. ISSN 1749-8716

Mathieu, D. & Brites, M. J. (2015). Expanding the Reach of the Interview in Audience and Reception Research: The Performative and Participatory Models of Interview. Revitalising Audience Research: Innovations in European Audience Research. Zeller, F., Ponte, C. e O´Neill, B. (edits.). Routledge book séries: Nova Iorque e Oxon, 44-61. ISBN: 978-1-13-878737-7 (hbk) e 978-1-315-76282-1 (ebk)

Dahlgren, P. (2009). Media and political engagement: Citizens, communication, and democracy. Cambridge: Cambridge University Press.





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