OLHARES SOBRE JOVENS

Janeiro 2014 - Alunos e Rankings nas Escolas 2013

 

O impacto do contexto escolar e socioeconómico nos resultados dos exames dos alunos do ensino básico e secundário: uma leitura a partir dos dados de 2013 dos rankings


Cátia Nunes, Psicóloga Social e Investigadora na área das Ciências Sociais

Daniela Oliveira, Matemática e Investigadora na área da Estatística Aplicada



INTRODUÇÃO

Os dados dos resultados dos alunos nos exames de final de ano têm sido publicados regularmente pelo jornal Expresso. Com base nestes resultados o Expresso tem publicado um ranking das escolas com o propósito de seriar e identificar, numa base anual, as escolas com melhores e piores resultados. A leitura deste tipo ranking, apesar de relevante, é também limitada no seu âmbito pois outras variáveis concorrem para o maior sucesso ou insucesso escolar dos alunos do que somente a pertença a uma determinada escola. Numa tentativa de colmatar esta lacuna, e à semelhança do que já foi feito para o ano de 2012, a base de trabalho dos resultados do ano de 2013 contemplou informação adicional sobre o contexto escolar e socioeconómico em que os alunos das diferentes escolas se inserem, possibilitando, assim, alargar o âmbito analítico dos resultados dos alunos nos exames. No presente texto, apresenta-se um exercício descritivo e explicativo com o objetivo de melhor compreender os resultados dos alunos nos exames, explorando, nomeadamente, o impacto de variáveis relacionadas com o contexto escolar e socioeconómico em que se inserem. Para além dos resultados dos alunos nos exames do ensino secundário (que já foram alvo de uma análise semelhante no ano de 2012), no presente texto são também apresentados os resultados dos alunos nos exames do ensino básico.

METODOLOGIA

A. Seleção dos universos de análise

A análise dos resultados médios dos exames e da sua relação com outras variáveis de contexto escolar e socioeconómico considerou dois momentos de avaliação referentes a dois níveis de ensino escolar distintos: o ensino secundário (exames realizados no 12º ano) e 3º ciclo do ensino básico (exames realizados no 9º ano).

Ensino básico

Do universo inicial de 1308 agrupamentos escolares ou escolas não agrupadas, foi feita uma restrição dos casos que simultaneamente detêm informação dos resultados dos exames e das variáveis de contexto escolar e socioeconómico. Esta restrição conduziu a um subuniverso de 1018 agrupamentos escolares ou escolas não agrupadas localizadas em território continental.

Para além dos resultados dos exames foram consideradas as seguintes variáveis de interesse:

• Média dos anos de escolaridade mais elevada entre os pais (mãe ou pai) dos alunos do ensino básico 3º ciclo;

• Percentagem dos alunos do ensino básico 3º ciclo que beneficiam de ação social escolar (A+B);

• Percentagem de professores do quadro de escola ou quadro de zona pedagógica;

• Percentagem de alunos inscritos no ensino regular entre o total de inscritos no ensino básico jovem;

• Percentagem de alunos que concluíram o 9º ano.

Ensino secundário

Do universo inicial de 619 agrupamentos escolares ou escolas não agrupadas, foi feita uma restrição dos casos que simultaneamente detêm informação dos resultados dos exames e das variáveis de interesse. Esta restrição conduziu a um subuniverso de 453 agrupamentos escolares ou escolas não agrupadas localizadas em território continental.


Para além dos resultados dos exames foram consideradas as seguintes variáveis de interesse:

• Média dos anos de escolaridade mais elevada entre os pais (mãe ou pai) dos alunos do ensino secundário;

• Percentagem dos alunos do ensino secundário que beneficiam de ação social escolar (A+B);

• Percentagem de professores do quadro de escola ou quadro de zona pedagógica;

• Percentagem de alunos inscritos no ensino regular entre o total de inscritos no ensino secundário jovem;

• Percentagem de alunos que concluíram o 12º ano (em CCH – Cursos Cientifico Humanísticos).

B. Medidas estatísticas

A estratégia de análise dos dados seguiu três etapas. Uma primeira com base numa perspetiva mais descritiva dos resultados considerando as variáveis de interesse e a sua segmentação por região, recorrendo a médias e respetiva medida de dispersão (desvio-padrão); uma segunda que pressupôs operacionalizar a relação entre os resultados dos exames e as variáveis de contexto familiar e escolar, a partir de uma análise de correlações (perspetiva bivariada); e uma terceira com base numa perspetiva multivariada recorrendo a modelos de regressão linear múltipla. Esta última perspetiva permite avaliar o efeito controlado das diferentes variáveis de contexto escolar e familiar nos resultados médios dos exames1.

Na análise descritiva, tendo em conta os valores médios das variáveis, ainda foi testada a significância da segmentação por região NUTS II na influência às variáveis de contexto socioecónomico (como o capital escolar dos pais e beneficiar de ASE) e escolar. As diferenças por região foram determinadas recorrendo a testes estatísticos One-Way ANOVA, que permitem perceber se as médias observadas nas variáveis de interesse nas diferentes regiões são estatisticamente diferentes. Isto é, se o contexto regional em que os agrupamentos se inserem permite destrinçar diferenças estatisticamente significativas nos resultados médios dos exames, bem como nas restantes variáveis.

Para a análise bivariada e no sentido de se avaliar a existência de relações entre as variáveis, utilizou-se o coeficiente de correlação de Pearson (R de Pearson) que permite quantificar a intensidade e a direção da associação entre duas variáveis.

Para a leitura do impacto conjugado recorreu-se a modelos de regressão linear múltipla que permitem quantificar as relações entre as variáveis, controlando o efeito de cada na variável na presença das restantes, nos resultados médios dos exames. Foi controlada a multicolinearidade entre as variáveis e a variância explicada pelo modelo foi avaliada recorrendo ao valor do R2 ajustado.


RESULTADOS

A. Continuidades ou contrastes regionais?

No Quadro 1 encontra-se a média e o respetivo desvio-padrão das variáveis de contexto familiar (capital escolar dos pais) e escolar, ao nível de Portugal Continental e para cada uma das regiões. Verificou-se que a média dos resultados dos exames é negativa (ou seja inferior à baliza dos 3 valores) para todas as regiões do Continente. Salienta-se também que em relação ao 3º ciclo do básico observam-se diferenças estatisticamente significativas entre as médias das regiões relativamente aos resultados dos exames e para todas as variáveis de contexto escolar e familiar, com exceção da variável percentagem de alunos inscritos no ensino regular entre o total de inscritos no ensino básico jovem.

Tendo em conta a variáveis relativa às habilitações escolares, é na região de Lisboa que se regista a médias de anos de escolaridade mais elevada entre os pais, seguida das regiões Algarve e Alentejo. Por sua vez, é na região Norte que se regista o valor médio mais baixo. A percentagem de alunos beneficiários de ação social escolar no ensino básico é mais elevada na região Norte, seguindo-se as regiões Algarve e Alentejo. A região Centro assinalava a percentagem comparativamente mais baixa (31,2%). No que diz respeito à estabilidade do corpo docente, aferida a partir da percentagem de docentes pertencentes aos quadros de zona, verifica-se que esta é mais elevada na região Centro (83,3%), e mais baixo no Algarve (70,5%).




















Em relação ao ensino secundário (Quadro 2) também se verificou que a média dos resultados dos exames é negativa (ou seja inferior à baliza dos 10 valores) para todas as regiões do Continente, apesar de não se observarem diferenças estatisticamente significativas nos resultados médios dos exames por região. À semelhança do que se observou para o ensino básico, também se registam diferenças estatisticamente significativas entre as médias das regiões para todas as variáveis de contexto escolar e socioeconómico.

Também no que respeita ao ensino secundário, é na região de Lisboa, seguida das regiões Algarve e Alentejo, que se registam médias mais elevadas de escolaridade entre os pais, mantendo-se o valor mais baixo associado à região Norte. A percentagem de beneficiários de ação social escolar no ensino secundário é, de igual modo, mais elevada na região Norte (38,9%) e mais baixa na região Lisboa (21,1%). A percentagem de professores do ensino secundário pertencentes a quadros de zona é, por seu turno, mais elevada na região Centro e mais baixa no Algarve, sendo os valores bastante próximos nas restantes três regiões do Continente. Lisboa é a região com a percentagem de alunos inscritos no ensino regular no total de alunos inscritos no ensino secundário jovem mais elevada e é no Algarve que esta percentagem se apresenta mais baixa (62,3%). Por fim, destaca-se que a percentagem de alunos que concluiu o 12º ano em Cursos Cientifico Humanísticos é mais baixo na região de Lisboa (55,5%) e mais elevadas nas regiões Norte e Centro (64,5%).




















B. O contexto escolar e socioeconómico pode ajudar a explicar os resultados escolares?

Para responder a esta questão, começamos por analisar a relação entre os resultados dos exames e as variáveis de contexto escolar e socioeconómico a partir de uma perspetiva bivariada.

Começando pelos resultados relativos ao ensino básico, por Continente e por regiões, observou-se uma correlação positiva e estatisticamente significativa (Gráfico 1) entre os resultados médios dos exames e a média dos anos de escolaridade mais elevada entre os pais (r = 0,46; p < 0,05). Deste modo, verifica-se uma associação entre estas duas variáveis, que indica que quanto mais elevada a média dos anos de escolaridade entre os pais, também mais elevada se apresenta a média dos resultados dos exames.

Por sua vez, regista-se uma correlação negativa (Gráfico 2) entre a percentagem de alunos beneficiários de ação social escolar numa escola/agrupamento e os resultados médios dos exames (r = -0,41; p < 0,05), indicador que quanto maior a percentagem de beneficiários de ação social escolar, tendencialmente menor se apresenta a média dos resultados dos exames.


















A correlação entre os resultados médios dos exames e a percentagem de professores do quadro de zona na escola/agrupamento é positiva e estatisticamente significativa (r = 0,28; p < 0,05), indicando que uma presença mais elevada de professores do quadro se relaciona positivamente com os resultados médios dos exames.

No que respeita à percentagem de alunos inscritos no ensino regular apenas na região Centro (Quadro 3) esta variável se revela estaticamente significativa ao apresentar uma correlação positiva de r=0,24; p < 0,05, o que indica que quanto maior o número de alunos inscritos no ensino regular tendencialmente maior se apresenta a média dos resultados dos exames.

Por fim, também se observam correlações positivas e estatisticamente significativas em todas as regiões entre a percentagem de alunos que concluíram o 9º ano e os resultados médios dos exames.















Em relação ao ensino secundário também se observou uma correlação positiva e estatisticamente significativa entre os resultados médios dos exames e a média dos anos de escolaridade mais elevada entre os pais (r = 0,46; p < 0,05). Deste modo, verifica-se uma associação entre estas duas variáveis, que indica que quanto mais elevada a média dos anos de escolaridade entre os pais, também mais elevada se apresenta a média dos resultados dos exames (Gráfico 3). Se considerarmos que o capital escolar é preditor dos resultados médios dos exames, poderemos, assim, inferir que um capital escolar mais elevado entre os pais terá um efeito positivo nos resultados médios dos exames.

Por outro lado, regista-se uma correlação negativa entre a percentagem de alunos beneficiários de ação social escolar numa escola/agrupamento e os resultados médios dos exames (r = - 0,34; p < 0,05). Isto é, considerando que esta variável constitui um preditor dos resultados médios dos exames, é possível inferir que quanto maior a percentagem de beneficiários de ação social escolar, tendencialmente menor se apresenta a média dos resultados dos exames (Gráfico 4).

















A correlação entre os resultados médios dos exames e a percentagem de professores do quadro de escola ou quadro de zona é positiva e estatisticamente significativa (r = 0,23; p < 0,05), indicando que uma presença mais elevada de professores dos quadros se relaciona positivamente com os resultados médios dos exames. Também no que diz respeito à percentagem de alunos inscritos no ensino regular entre o total de inscritos no ensino secundário jovem e à percentagem de alunos que concluíram o 12º ano em cursos CCH se verificam correlações positivas e significativas com os resultados médios dos exames (r = 0,28; p < 0,05 e r = 0,34; p < 0,05, respetivamente)

Os resultados por região (Quadro 4) revelam o mesmo padrão de correlações entre as variáveis de contexto familiar e escolar e os resultados médios dos exames. Assim, verificam-se correlações estatisticamente significativas para todas as regiões, com exceção do Algarve. Os resultados para esta região não são alheios ao facto de o número de agrupamentos escolares ou escolas não agrupadas (n=17) ser comparativamente menor ao número registado para as restantes regiões.














C. Qual o efeito preditor do contexto escolar e socioeconómico nos resultados escolares?

A partir da análise de correlações podemos perceber o sentido da relação entre os resultados dos exames e as variáveis de contexto escolar socioeconómico. Contudo, o impacto conjugado destas variáveis só poderá ser captado recorrendo a uma leitura multivariada dos dados. Tendo em vista este objetivo, recorreu-se a modelos de regressão lineares multivariados, considerandos as variáveis de interesse enquanto preditores dos resultados médios dos exames.

Os resultados apontam para um impacto diferenciado do contexto escolar e socioeconómico nos resultados dos exames, registando-se igualmente impactos diferenciados consoante o âmbito regional. Este padrão de resultados é observado para os ambos os níveis de ensino analisados – ensino básico (exame 9º anos) e ensino secundário (exame 12º ano).

O Quadro 5 apresenta os resultados obtidos para o ensino básico e observa-se que, para o contexto do território continental, têm impacto nos resultados médios dos exames a escolaridade dos pais (impacto positivo), a percentagem de beneficiários de ação social (impacto negativo), a percentagem de professores de quadro de escola ou quadro de zona pedagógica (impacto positivo), e a percentagem de alunos que concluíram o 9º ano (impacto positivo).

















Se segmentarmos os resultados por região, é possível concluir que se verifica um impacto diferenciado do contexto escolar e socioeconómico tendo em conta o âmbito regional, mantendo-se a variável relativa à média de anos de escolaridade dos pais como a única (no caso do Alentejo) ou a melhor preditora (no caso das regiões Norte, Centro e Lisboa) dos resultados médios dos exames do 9º ano.

Fogem a este padrão os resultados obtidos para a região do Algarve, uma vez as variáveis que apresentam um efeito preditor estatisticamente significativo correspondem apenas à percentagem de alunos beneficiários de ação social escolar (impacto negativo) e a percentagem de alunos que concluíram o 9º ano (impacto positivo).

A percentagem de beneficiários de ação social escolar apresenta também um efeito significativo (impacto negativo) nos resultados para a região Norte, ainda que menor do que a média de anos de escolaridade dos pais. Por último, salienta-se também que a percentagem de alunos que concluíram o 9º ano constitui uma variável preditora dos resultados dos exames em todas as regiões do país, com exceção do Alentejo.

No que respeita aos resultados para o ensino secundário (Quadro 6), e considerado o contexto do território continental, têm impacto nos resultados médios dos exames a escolaridade dos pais (impacto positivo), o número de beneficiários de ação social (impacto negativo) e a percentagem de professores de quadro de escola ou quadro de zona pedagógica (impacto positivo) e a percentagem de alunos que concluíram o 12º ano em cursos CCH (impacto positivo). Ainda que o efeito conjugado destas três variáveis explique 29,3% da variância do modelo, a variável que capta o capital escolar dos pais é aquela que apresenta maior impacto enquanto preditor dos resultados médios dos exames.

















Se segmentarmos os resultados por região, é possível concluir que se verifica um impacto diferenciado do contexto escolar e socioeconómico tendo em conta o âmbito regional. Na região de Lisboa a escolaridade dos pais revela-se o único preditor estatisticamente significativo no modelo, ao passo que nas regiões Norte e Alentejo, também a percentagem de alunos que concluíram o 12º ano em cursos CCH revela um impacto nos resultados médios dos alunos. Por sua vez, na região Centro, além da variável que representa a escolaridade dos pais, a variáveis percentagem de professores do quadro de escola ou do quadro de zona pedagógica revela um impacto nos resultados médios dos alunos do, ainda que menor face ao capital escolar dos pais.

NOTAS FINAIS

A leitura destes resultados permitiu concluir que os contextos escolares e socioeconómicos em que os alunos se inserem constituem variáveis importantes para melhor compreender os resultados dos exames dos alunos, tanto ao nível do ensino básico como do ensino secundário. De facto, estar numa determinada escola não dita per se um melhor ou pior resultado escolar. Outras variáveis de enquadramento familiar, social e económico apresentam-se também preditoras dos resultados dos alunos nos exames. O âmbito territorial, limitado no presente texto ao contexto das regiões do Continente, constitui também uma dimensão de análise relevante, uma vez que permite colocar em evidência em que medida se verificam padrões homogéneos ou heterogéneos no que respeita às variáveis com impacto nos resultados dos alunos nos exames.

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Notas:

1 Em todas as análises, e respetivos testes, considerou-se, globalmente, um nível de significância (α) inferior a 0,05 (5%), embora na análise multivariada tenha sido considerado, pontualmente, um nível de significância (α) inferior a 0,10 (10%).






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