OLHARES SOBRE JOVENS

Julho 2013 - Culturas Juvenis Assembleianas

 

A MARCA DA PROMESSA: CULTURAS JUVENIS ASSEMBLEIANAS

Daniela Medeiros de Azevedo Prates (UFRGS)1



Sobre a pesquisa

O estudo apresenta parte da discussão presente na pesquisa de doutorado em andamento cujo objetivo central é problematizar a constituição de jovens assembleianos na contemporaneidade.

A inserção etnográfica realizou-se junto a jovens da Igreja Evangélica Assembleia de Deus no município de Novo Hamburgo, no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, entre os anos de 2011 e 2012, tendo seu desdobramento no contexto português junto à comunidade assembleiana de Lisboa no ano de 20132. Foram realizadas observações-participantes em espaços institucionais com forte investimento sobre jovens/dos próprios jovens, como congressos, encontros de louvor e oração, cultos e demais espaços de estudos, a exemplo da aproximação as Escolas Bíblicas Dominicais, entendendo que estes espaços colocam em exercício uma série de práticas que visam à constituição de determinados sujeitos conforme parâmetros considerados adequados pela crença. Nessa estreita relação entre a constituição do sujeito e do sujeito na constituição de si, foi mister buscar aproximações aos modos pelos quais estes sujeitos experimentam, vivenciam a condição juvenil, perpassada por uma série de investimentos de diferentes âmbitos, inclusive religiosos e que, excetuando-se especificidades denominacionais, evocam um pertencimento comum: ser evangélico, embora tenham diferentes parâmetros sobre esta condição.

Portanto, tornou-se fundamental a trajetória da pesquisa andar nos rastros desses sujeitos como nos inspira Pais (2003), procurando investigar modos de vida, pertencimentos, significados, através de eventos e rituais em que a vida passa a adquirir sentido. Dessa forma, justifica-se a pertinência da inserção etnográfica junto a jovens assembleianos tanto nas observações em espaços institucionais religiosos, como nas perambulações em seus interstícios, na busca de aproximação e diálogo com esses sujeitos: em suas casas, nos arredores das igrejas, escadarias, praças, lanchonetes, cafés; enfim diferentes lugares e momentos em que me era permitido conversar com esses sujeitos, mesmo que de forma eventual, como por vezes nas redes sociais.

Concomitantemente, foi necessário o aprofundamento em pesquisas acadêmicas, permitindo não propriamente lançar respostas, mas colocar em suspeição a recorrente evocação ao pertencimento evangélico, visibilizado em diferentes formas. Destacamos a circulação de enunciações que preconizam aos jovens a missão de fazerem a diferença no mundo secular, incitando-os a deixarem sua marca às demais gerações, como nos remetem nomeações de grupos de jovens assembleianos: Geração Eleita, Geração que tem a marca da promessa, entre outras identificações.

É importante ainda frisarmos que a problematização sobre jovens assembleianos, inserida no debate acadêmico do campo educacional, requer aproximações e deslocamentos de procedimentos teórico-metodológicos que não lhes são próprios, ainda que presentes na formação acadêmica da investigadora em Ciências Sociais. Nesse sentido, o estudo alinha-se as contribuições dos Estudos Culturais em Educação por tratar-se de um campo que não se atém aos limites disciplinares, aproximando diferentes áreas do conhecimento para analisar fenômenos sociais. Embora reconheçamos que tal articulação não seja uma garantia de solução, afinal, estaremos transitando entre saberes que necessitam de autorizações e de um grande empreendimento teórico para desconstruir alguns entendimentos do pensamento moderno (WORTMANN, 2005).

Geração que tem a marca da promessa: culturas juvenis assembleianas

A condição de ser jovem imbrica-se a uma multiplicidade de possibilidades que tem em comum a busca constante, mas nunca plena, de pertencimentos, de comunidades de estilos presentes num contexto fluido e em perpétua transformação. Trata-se de formas de pertencimento que buscam sentidos à própria existência, mas que requerem frequentes negociações, em que cada um precisa ser persuadido quanto à relevância do sentimento de pertença para si, já que envolve uma relação entre a busca de segurança e a perda de liberdade (BAUMAN, 2003). Compreendemos que é neste solo movediço que vem se produzindo formas de pertencimento também no âmbito religioso. Na busca de pertença, criam-se laços de similaridade, experiências vivenciadas socialmente, em diferentes estilos, marcas e lugares, são as culturas juvenis.

Inspirando-nos em Pais (2003), fazemos uso do termo culturas juvenis assembleianas referindo-nos a modos de vida específicos, a significados compartilhados (ou não), a marcas de pertença de jovens ao âmbito religioso, suas linguagens e usos, rituais e eventos em que a vida passa a adquirir sentido imbricando-se a uma série de investimentos que os perpassam em diferentes âmbitos. Nessa direção, passamos a questionar: que estilos, escolhas e construções se constroem as culturas juvenis assembleianas? Como se relacionam às novas tecnologias digitais?


Juventudes se inventam através de discursos e visuais descritos virtualmente, se consomem e consomem ao outro, apropriam-se de espaços nem sempre sancionados e sobre as marcas da forte ênfase na cultura bíblica ouvem e falam da Palavra. São jovens que navegam pela rede, que se reúnem em corais, formam grupos musicais atravessados pelas marcas religiosas do gospel3, inclusive, vindo a imbricá-las a outros gostos, estilos ou movimentos, associados a expressões como rock, rap, hip-hop, pop, sertanejo universitário, entre outros.

fig1 julho










Os jovens interagem virtualmente, discutindo interesses comuns, constroem laços com amigos virtuais, selecionam amigos para os chats, produzem identidades, estilos, pertencimentos e territórios. A rede se torna um lugar aonde se vai e se retorna, como um clube (GARBIN, 2003). Um lugar de encontro, de agregação, de busca de similaridades, uma vitrine em que as identidades se exibem e se reinventam, consomem e são consumidas (SILVEIRA, 2006).

Modos de ser e estar no mundo que perpassam gostos, estilos, 'estados de ânimo' do seu cotidiano que encontram expressão na música, muitas vezes, articulada às novas feições contemporâneas de um amplo mercado gospel. A esse respeito, é notório que algumas denominações têm se flexibilizado para incorporar as linguagens dos jovens, possibilitando a inserção de outros estilos dentro das igrejas, como é o caso da do hip hop e do rock4. No entanto, isso requer frequentes justificativas que levam em consideração a conduta cristã desejável conforme os parâmetros institucionais, afinal, como explica Jungblut (2007, p. 148) em relação à cena do rock: "Poucas são as igrejas mais tradicionais que lidam com naturalidade com esses jovens cabeludos, esteticamente rebeldes, cheios de tatuagens e piercings."

fig2 julho












Assim como diversos grupos evangélicos procuram distanciar-se da chamada 'mundanidade', em outras denominações têm ocorrido a paulatina minimização do tradicional rigorismo e a aproximação à sociedade envolvente, inclusive inserindo-se em inesperados espaços sociais, como a mídia, a política e o marketing. No interior desse quadro emergente, vem ocorrendo um movimento cultural evangélico direcionado para a juventude, em que os jovens e seu universo estético e comportamental vêm se tornando um dos principais fronts de atuação do conversionismo religioso5.

No âmbito religioso assembleiano, percebemos movimentos de aproximação aos jovens como a crescente presença de espaços destinados a esse público, como congressos, seminários, cultos, retiros, classes de estudos bíblicos, entre outros espaços que criam uma série de investimentos sobre esses sujeitos. Embora a Assembleia de Deus procure preservar os princípios éticos e morais pautados nas interpretações bíblicas que vem sendo sua marca desde sua constituição, uma série de deslocamentos podem ser apontados ao que se refere a certa flexibilização diante dos chamados usos e costumes. O que evidentemente não a isenta nem das críticas dos segmentos mais conservadores, nem mesmo das inúmeras estratégias construídas por parcelas de jovens para viverem a condição juvenil.


fig3 julho











A respeito das relações dos jovens assembleianos com as prerrogativas institucionais, sobretudo ao que se refere aos usos e costumes, torna-se notório que as narrativas em Lisboa não se firmam a questão das vestimentas, como recorrentemente ocorre com os jovens de Novo Hamburgo. Provavelmente porque essa geração lisboeta já vem crescendo sem restrições a determinados padrões que estiveram presentes nas demais gerações, como a obrigação de saias e cabelos compridos e a proibição de acessórios como brincos e maquiagem. Nesse sentido, suas narrativas recaem sobre outras questões que perpassam as experiências juvenis, como músicas, festas, relacionamentos, tensionando modos de existência imbricados ao âmbito religioso.


fig4 julho


















A forte ênfase em orientações éticas e morais pautadas nos chamados usos e costumes produz formas de distinção e visibilidade daqueles que possuem a marca da promessa, o que vem assumindo diferentes feições ao longo do centenário das Assembleias de Deus no Brasil e em Portugal. A este respeito, percebemos diferentes posições não somente no que tange aos cenários dos dois países. As orientações das Convenções das Assembleias de Deus imbricam-se às complexas relações locais entre o pastor e seu pastorado, articulando-se ainda a aspectos sociais, culturais e econômicos que perpassam as diversas igrejas, sobretudo na contemporaneidade. Ou seja, tornando impossível tratarmos de forma homogênea as múltiplas condições que perpassam as congregações e seus investimentos sobre os jovens, permitindo que um simples deslocamento institucional produza tensionamentos, como o referido anteriormente pela jovem assembleiana: "Que mundo é esse?".


Notas:

1 Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob orientação da Prof.a Dra. Elisabete Maria Garbin e pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Currículo, Cultura e Sociedade (NECCSO). A pesquisadora contou com período de doutoramento no exterior realizado no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, sob orientação do Professor Doutor José Machado Pais, obtendo financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES/PDSE, processo 13729-12-8. Email: Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar

2 No período de janeiro a abril de 2013 foram realizadas incursões etnográficas junto a jovens da Igreja Assembleia de Deus de Lisboa e articulação a pesquisas sobre a temática no contexto europeu.

3 Gospel significa Evangelho. Inicialmente, remete-se as expressões musicais oriundas do pentecostalismo norte-americano. Na época, conhecida como Evangelistic, cujo significado similar é evangelístico.

4 Alguns estudos apontam as controvérsias da inserção de estilos musicais nas igrejas, remetendo-se a cena gospel. Para maiores informações, ver Azevedo (2012).

5 Nesse contexto, diversas ações são instituídas com grande sucesso através de organizações interdenominacionais e paraeclesiásticas, a exemplo: Surfistas de Cristo, Atletas de Cristo, a Organização Palavra da Vida (promotora de acampamentos juvenis) e o evento Marcha para Jesus (que reúne anualmente milhões de pessoas nos grandes centros do Brasil).

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REFERÊNCIAS

AZEVEDO, Daniela Medeiros de. A marca da promessa: culturas juvenis assembleianas. Porto Alegre, 2012. 141 f. Projeto de Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, 2012.

BAUMAN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.

GARBIN, Elisabete Maria. Cultur@s juvenis, identid@des e Internet: questões atuais. Revista Brasileira de Educação. Campinas, n. 23, p. 119-135, mai-ago, 2003.

JUNGBLET, Airton Luiz. A salvação pelo rock sobre a "cena underground" dos jovens evangélicos no Brasil. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 27(2), p. 144-162, 2007.

PAIS, José Machado. Culturas Juvenis. Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2003. 2 Ed.

SILVEIRA, Rosa Hessel. Identidades para serem exibidas: breve ensaio sobre o Orkut. In: SOMMER, Luis Henrique; BUJES, Maria Isabel (Org.) Educação e Cultura contemporânea: articulações, provocações e transgressões em novas paisagens. Canoas: Editora da Ulbra, 2006. p. 137-150.

WORTMANN, Maria Lúcia Castagna. Dos riscos e ganhos de transitar nas fronteiras dos saberes. In: COSTA, Marisa Vorraber; BUJES, Maria Isabel Edelweiss (Orgs.). Caminhos Investigativos III: Riscos e possibilidades de pesquisar nas fronteiras. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. p. 45-67.


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