OLHARES SOBRE JOVENS

Junho 2012 - Os Jovens e os Partidos

 

Marco Lisi (FCSH-UNL)



Na ciência política a relação entre jovens e partidos tem sido largamente negligenciada. Para além da inexistência de estudos sobre a militância e o envolvimento dos jovens dentro das organizações partidárias, os dados sobre as opiniões dos jovens em relação às funções e ao papel desempenhado pelos partidos são escassos. No entanto, este é um aspecto extremamente importante para compreender não apenas os níveis elevados dos sentimentos anti-partidários e as atitudes críticas em relação aos actores tradicionais da representação, mas também o fenómeno da crescente abstenção eleitoral e desafeição política.

O debate sobre a "crise dos partidos" engloba várias dimensões como, por exemplo, a diminuição de militantes, a imagem destes actores na opinião pública ou a capacidade de influenciar a percepção dos fenómenos políticos. Um primeiro indicador útil para observarmos a relação entre partidos e indivíduos refere-se à identificação partidária. Os níveis de identificação com os partidos apresentam-se mais reduzidos em Portugal face a outras democracias europeias e têm vindo a diminuir ao longo das últimas décadas. Em 2002, a proporção de indivíduos que se identifica com um partido correspondia a 51.8%, passando a 45% nas eleições legislativas de 2009. Os jovens apresentam níveis inferiores de identificação com os partidos quando comparados com outras camadas da população. O gráfico 1 mostra claramente não apenas a reduzida percentagem de jovens eleitores com ligações partidárias, mas também a diminuição desta proporção ao longo do tempo.
























O declínio dos partidos não se tem manifestado apenas na capacidade de orientar os indivíduos na esfera política, mas também na percepção do papel desempenhado para o funcionamento das instituições democráticas. Segundo estudos recentes, Portugal apresenta níveis de desconfiança nos partidos muito inferiores à média Europeia, e até mais reduzidos do que outras democracias recentes da Europa do Sul (Teixeira 2011). Porém, a insatisfação em relação aos partidos reflecte-se nos elevados níveis de anti-partidarismo, quer a nível normativo quer a nível da sua acção concreta.

Até que ponto os jovens apresentam diferenças significativas em relação a outros grupos etários na percepção do papel e do desempenho dos partidos? O gráfico 2 indica que os mais novos apresentam atitudes distintas apenas em algumas dimensões. Em primeiro lugar, não há diferenças significativas em termos da percepção normativa do papel dos partidos. Por outras palavras, independentemente da faixa etária, a grande maioria dos inquiridos reconhece o valor fundamental dos partidos para as democracias representativas. Em segundo lugar, cerca de 80% dos entrevistados também considera que os "partidos se criticam muito uns aos outros, mas na realidade são todos iguais", sem divergências relevantes entre os grupos etários. No entanto, quando consideramos as atitudes em relação à função representativa emergem claramente níveis mais elevados de sentimentos "apartidários". Por exemplo, os jovens sentem-se pior representados pelos partidos em relação a outras camadas da população. Por outro lado, quando se considera a acção dos partidos enquanto actores indispensáveis para a participação política, o valor positivo dos partidos cresce linearmente ao passarmos a faixas etárias mais maduras.























Até que ponto estas atitudes negativas em relação aos partidos se traduzem num baixo nível de mobilização através das organizações partidárias? O inquérito sobre a Qualidade da democracia realizado pelo Instituto de Ciências Sociais em 2011 oferece a oportunidade de dar uma resposta preliminar a este problema. Em geral, o instrumento mais eficaz é o voto, seguido pelos contactos com os media. A reduzida confiança nas instituições representativas tradicionais é confirmada pela baixa percentagem de opiniões positivas em relação à possibilidade de ter contactos com políticos ou participar em partidos. Estas atitudes, no entanto, são transversais à população, apresentando divergências reduzidas entre os diferentes grupos etários. A percepção da eficácia da participação por parte dos mais novos distingue-se sobretudo pela maior propensão a confiar em formas alternativas de mobilização como, por exemplo, participar num movimento de cidadãos, alertar os órgãos de comunicação social ou assinar uma petição. O contacto com os políticos e a colaboração com os partidos são as duas formas menos eficazes aos olhos dos indivíduos, sem diferenças significativas entre os grupos etários, sobretudo as faixas mais maduras do eleitorado.






















Os dados disponíveis indicam que a distância entre cidadãos e partidos é particularmente significativa no que diz respeito aos jovens. A maior desconfiança e visão crítica dos jovens em relação aos partidos não se prende apenas com o processo de socialização, mas também com a estratégia dos partidos que têm procurado mobilizar as faixas mais centrais da população, sem propor uma mensagem atractiva para os jovens. As opiniões negativas dos mais novos baseiam-se sobretudo no carácter oligárquico do funcionamento interno dos partidos, na incapacidade de representarem os seus interesses e na desconfiança nestes actores como veículo de participação.

A insatisfação em relação à actuação prática dos partidos políticos existentes e a necessidade de reformar o funcionamento interno emerge claramente no gráfico 4. A grande maioria dos inquiridos (entre 84 e 88%) é favorável a uma maior participação nas decisões dos partidos, assim como a uma maior participação na escolha dos líderes e dos candidatos. Apesar de as diferenças entre os grupos etários serem reduzidas, há nos mais novos uma maior vontade e preocupação de participar nos partidos para influenciar as orientações programáticas. Este facto pode prender-se com o maior nível de educação dos jovens, mas também com a preferência por formas de democracia directa ou participativa.

























De facto, a distância entre jovens e partidos políticos é confirmada também quando se considera a presença quase irrelevante dos primeiros dentro das organizações partidárias. Dentro do reduzido número de filiados (cerca de 4% da população), os jovens aparecem claramente sub-representados em relação às outras faixas etárias. Vários estudos indicam que a grande maioria dos filiados dos partidos portugueses pertence à faixa central do eleitorado (entre 35 e 60 anos), enquanto os jovens (18-30 anos) representam sempre menos de 20% do total dos filiados (Widfeldt 1995).

Esta dificuldade por parte dos partidos em atrair e recrutar os mais novos emerge também quando observamos os valores das juventudes partidárias. O meio escolar tem sido um dos sectores principais de acção dos partidos junto dos jovens. Tradicionalmente, o PCP (através da Juventude Comunista Portuguesa, JCP) tem desempenhado um papel importante na mobilização dos jovens, apesar da competição com o Bloco de Esquerda (BE) que tem emergido na última década. Ao contrário dos outros partidos, o BE não tem uma organização separada para o enquadramento dos jovens. De facto, a base eleitoral deste partido tem-se caracterizado pela forte presença de indivíduos mais novos, com elevados níveis de educação e residentes em zonas urbanas. Segundo os dados mais recentes, a JSD é o que apresenta, em valor absoluto, uma maior capacidade de atracção dos jovens, seguido pela JS com cerca de 30 mil filiados.






















A relação entre jovens e partidos é fundamental para compreender a crise das democracias representativas e o declínio dos partidos. Sem nenhuma reforma profunda que procure reaproximar os actores partidários das faixas mais novas da população, é difícil que as exigências deste grupo social possam ser canalizadas dentro do sistema político. Por outro lado, as alternativas às formas tradicionais de representação parecem ainda incipientes e sem capacidade para se afirmarem como um paradigma alternativo. Para terminar, é necessário evidenciar que esta área ainda permanece quase completamente inexplorada, quer pela difícil colaboração dos partidos políticos, quer pelo desinteresse do meio académico. Aspectos essenciais da relação entre jovens e a política como, por exemplo, as motivações que levam à adesão aos partidos, as actividades desenvolvidas pelas juventudes partidárias (fora e dentro do meio escolar), e uma comparação entre o perfil dos jovens militantes e os não filiados são apenas algumas das dimensões a considerar em futuras investigações.



Referência bibliográficas

Cruz, Manuel Braga da. 1995. Instituições Políticas e Processos Sociais. Lisboa: Bertrand.

Freire, A., José Manuel Leite Viegas, and Filipa Seiceira, eds. 2009. A Representação Política em Portugal - Inquéritos e Bases de Dados. Lisboa: Sextante.

Martins, Manuel Meirinho. 2004. Participação Política e Democracia - O caso português (1975-2000). Lisboa: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

Teixeira, Conceição Pequito. 2011. "Relação entre cidadãos e partidos no Portugal democrático: um balanço." In Eleições e Sistemas Eleitorais no Século XX Português: Uma Perspectiva Histórica e Comparativa, ed. A. Freire. Lisboa: Edições Colibri.

Widfeldt, Anders. 1995. "Party Membership and Party Representativeness." In Citizens and the State, ed. H.-D. Klingemann and D. Fuchs. Oxford: OUP.







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