OLHARES SOBRE JOVENS

Maio 2012 - Os Jovens e Ambiente

 

Mónica Trüninger (ICS-UL)
Susana Valente (ICS-UL)




O conceito de Desenvolvimento Sustentável foi definido no âmbito das Nações Unidas em 1987 como aquele desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades (Comissão Mundial para o Ambiente e Desenvolvimento, 1991). Este conceito emerge no contexto político de reflexão perante as consequências do modelo de desenvolvimento capitalista, em particular, as consequências visíveis de degradação ambiental, tanto local como global no fim do século XX. A necessidade de preservação do ambiente e dos recursos naturais passou assim a ser perspetivada não só ao nível do presente mas também do futuro. Ou seja, pela primeira vez equacionou-se que ao prosseguir com o modelo de desenvolvimento dominante, o futuro da própria humanidade seria posto em causa.

Desde então, a nível político, uma série de medidas têm sido orientadas segundo os princípios do Desenvolvimento Sustentável, que promove o equilíbrio entre 4 pilares – o social, o económico, o ambiental e a governança. No entanto, segundo vários críticos, trata-se de um movimento de mudança demasiado lento, tendo em conta a urgência dos problemas ambientais, e que não supera um conjunto de interesses instalados na sociedade.

Perante este cenário, e tendo em conta a salvaguarda do ambiente para o futuro das próximas gerações, vale a pena conhecer como é que os jovens portugueses se posicionam perante os desafios ambientais. Como é que no Portugal do presente os jovens – que são no fundo as gerações futuras – olham os problemas ambientais? Como é que integram as preocupações ambientais nas suas práticas quotidianas? E será que se sentem informados sobre estas questões?
Nos últimos dados disponíveis do Eurobarometro (68.2, 2008), verifica-se que os problemas ambientais que mais preocupam os jovens portugueses são as Alterações Climáticas e a Poluição do Ar. Também assuntos como os Desastres Ecológicos, o Uso de OGMs (Organismos Geneticamente Modificados) e o Esgotamento de Recursos Naturais são mais preocupantes para os mais jovens do que para os grupos etários acima dos 25 anos.

É no entanto, a Perda de Biodiversidade o problema ambiental que nos jovens entre os 15-24 anos se destaca com maior significado, quando se compara com outros grupos etários. A clara visibilidade deste problema entre os jovens poderá, porventura, sinalizar a emergência de um novo paradigma que marca a relação entre Sociedade-Natureza.


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   Eurobarometro 68.2, 2008.


Esta nova relação poderá ser importante para pressionar as entidades competentes na consolidação de políticas e práticas mais sustentáveis para o futuro. Já se vê, aliás, o contributo claro e inquestionável dos jovens nas muitas manifestações e protestos internacionais acionados a favor da proteção ambiental ou na condenação de crimes ambientais (manifestações contra o nuclear na Alemanha em Março 2011; protestos contra campos cultivados com OGMs; protestos antiglobalização em Seattle em 1999, e até o próprio movimento mais recente Occupy). Este último, para além de preocupações com a solidariedade, justiça social, transparência e democracia participativa, aglutina igualmente simpatizantes e membros de movimentos ambientalistas. Porém, a ação dos jovens na defesa do ambiente não é um dado novo. No fundo, os novos movimentos sociais em torno do ambiente e que ganharam força nos anos 60 tinham já na sua constituição as camadas mais jovens e estudantis, preocupadas com o seu futuro e a sustentabilidade do planeta.

Mas relativamente às questões da biodiversidade, de onde surgirá esta preocupação mais acesa entre os jovens? Trata-se de um assunto relativamente recente em termos de tematização mediática. É, sobretudo, um assunto que é alvo de documentários sobre a vida selvagem e sobre a Natureza ameaçada, presentes diariamente em canais como o National Geographic, Odisseia e outros canais específicos que passaram a estar nos lares dos portugueses de forma mais abrangente já depois de 2000, com a generalização da televisão por cabo. Este efeito da disponibilidade diária de conteúdos (documentários) junto das camadas mais jovens é ainda reforçado por programas infantis que realçam esta temática no sentido de uma afetividade por todos os animais do planeta, desde o famoso Panda em extinção da WWF até ao papel essencial das abelhas na polarização. Para além de um imaginário infantil produzido através de vários media, também na escola, os programas curriculares integram a biodiversidade, sendo uma forma de sensibilizar os mais jovens para a sua importância para a vida no Planeta, mostrando a interdependência de todos os seres vivos.

A esta preocupação elevada com vários problemas ambientais, junta-se um outro indicador em que os mais jovens se destacam: a maior parte considera-se bem ou muito bem informado sobre as questões ambientais, tendência que encontra paralelo em estudos anteriores realizados sobre o ambiente no nosso país (Ferreira de Almeida, 2004: 244-245). Verifica-se que à medida que a idade aumenta, diminui a autoavaliação positiva em termos de informação ambiental.






















Para além do efeito escolar que se faça sentir junto dos mais jovens nesta matéria, que outros meios de informação utilizam os jovens de forma a favorecer esta posição distintiva? O acesso à informação revela algumas diferenças geracionais em termos dos suportes mais utilizados –televisão, imprensa, internet, conversas face-a-face - verificando-se que são os mais novos que tendem a aceder à informação ambiental pela internet.

Os outros escalões etários recorrem mais à televisão/telejornais ou às conversas com amigos, ou recorrem à imprensa (em particular, os portugueses entre os 25 e os 54 anos). Ainda que a televisão mantenha o seu lugar dominante como meio de informação ambiental para os mais jovens, é o suporte internet que está a ganhar cada vez mais terreno, como aliás foi demonstrado aqui pela Ana Delicado e o Nuno de Almeida Alves (ver tema do mês de Abril).

























Para além da preferência crescente pela internet, também é pertinente perceber quais as fontes de informação que mais confiança dão aos jovens no que diz respeito às questões ambientais. Em quem é que os jovens mais confiam para obter informação credível sobre ambiente?

Como se pode ver, é nos cientistas e nas ONGs (Organizações Não Governamentais) que os mais jovens depositam maior confiança, considerando que a informação ambiental que daí provem é a mais credível. Ainda que numa menor escala, também a União Europeia é assumida como uma fonte mais credível para os mais jovens do que para os outros grupos etários.
































Por seu turno a televisão e o governo são as duas fontes que, pelo menos no que diz respeito às questões ambientais, são vistas aos olhos dos jovens portugueses como menos fiáveis na transmissão de informação ambiental. Estas tendências estão associadas ao forte papel que a escola desempenha tanto na literacia científica como na literacia ambiental. A este propósito vale a pena consultar o recenseamento e análise dos projetos de educação ambiental nas escolas e em organizações não escolares, efetuado por Schmidt et al (2010).

Os mais jovens são aqueles que mais preocupação manifestam pelo ambiente e que mais informados se consideram em relação a temáticas ambientais. Mas será que a posse de informação ambiental se traduz ao nível das práticas mais sustentáveis?




























Efetivamente, os mais novos (15-24 anos) são aqueles que se destacam, pela positiva, em relação à “separação do lixo”, com valores bastante acima da média dos outros escalões etários. Eventualmente, é em parte fruto de um conjunto de campanhas e de ações de educação ambiental que os implicou e envolveu em contexto escolar desde o 1º ciclo do Ensino Básico (Schmidt et al, 2010).

Apresentam também um valor mais elevado na escolha de meios de transporte amigos do ambiente, ainda que possa, neste caso, ser um factor de contingência. Ou seja, uma parte dos jovens deste grupo (sobretudo aqueles entre os 15 e os 18 anos) ainda não têm idade para ter carta de condução.

No que respeita às outras práticas mais recorrentes – reduzir o consumo de energia e água - são práticas partilhadas por todos os escalões etários de forma quase equivalente. O facto de serem ações quotidianas e domésticas, as eventuais razões ambientais dos jovens acabam por diluir-se no todo da família onde estão inseridos, não dependendo unicamente da sua tomada de decisão.

Mas se o quotidiano dos jovens ainda está muito marcado pelos constrangimentos estruturais do agregado familiar onde estão integrados – o qual pode englobar várias gerações (sendo certo que esta tendência das famílias numerosas tem vindo a diminuir na sociedade portuguesa desde os anos 60) –, como será quando saírem da casa dos pais? Será que quando esta nova geração assumir um novo agregado familiar vai fazer refletir nas suas práticas quotidianas, as suas preocupações ambientais e o seu nível elevado de informação ambiental? Esta é uma questão que futuros e tão necessários estudos sobre as representações e práticas ambientais na sociedade portuguesa vão certamente indagar.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

- Comissão Mundial para o Ambiente e Desenvolvimento. 1991 [1987]. O Nosso Futuro Comum. Lisboa: Meribérica.
- Ferreira de Almeida, J. (coord). 2004. Os Portugueses e o Ambiente (2). Oeiras: Celta
- Schmidt, L., Nave, Gil, Guerra, J. 2010. Educação Ambiental. Balanço e perspectivas para uma agenda mais sustentável. Lisboa: ICS.
- Schmidt, L.; Delicado, A.; Ferreira, J. G.; Fonseca, S.; Seixas, J.; Sousa, D.; Truninger, M.; Valente, S. (2011), O Ambiente em 25 Anos de Eurobarómetro, Relatório Observa, Abril, Lisboa: Observa/ICS.








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