OLHARES SOBRE JOVENS

Maio 2013 - Juventude, graffiti e escritos urbanos

 


Juventude, graffiti e escritos urbanos: o ruidoso silêncio da participação.

 

Glória Diógenes[i]


 

Quem olha para uma cidade como Lisboa, cadenciada pelo seu vaivém cotidiano, pouco consegue discernir acerca do que existe pintado, riscado em suas paredes e muros. O que parece se destacar, para quem apenas perfaz trajetórias diárias, é um emaranhado de rabiscos, de traços disformes que mais confundem o transeunte-leitor do que revelam significados. Atentamo-nos ou não, as cidades, mais do que uma dimensão física e material, constituem uma paisagem pontilhada de informações, um receptáculo de saberes, dizeres e desejos. Como dizia Saramago no seu “Ensaio sobre a Cegueira”, é que quase toda a gente vê e, apenas, algumas dessas pessoas reparam o entorno no qual convivem e se movimentam.

 

A juventude tem atuado, de forma mais destacada, como artífice da produção de uma linguagem urbana e tem utilizado seus próprios corpos-em-movimento e a paisagem da cidade como superfície de escrita. Em uma publicação anterior,[ii] sinalizava que os jovens parecem reeditar nas grandes cidades a dinâmica do espetáculo, do cortejo, do desfile, da cor, da música e da fantasia como forma de acionar uma comunicação urbana, um modo de ser e de se fazer cidade. “A etimologia da palavra polis mostra que significa ‘aglomeração’, ‘multidão’, ‘fluir’, ‘cheio’, muitos. Está assim relacionada à palavras tais como ‘plenus’, ‘plerus’, ‘plebs’, ‘palus’, ‘plus’ (ou superabundância, sempre mais)..”[iii]. É aproveitando-se dos constantes deslocamentos de seus corpos e dos multíplices fluxos urbanos que a juventude, diariamente, tem ressemantizado, por meio de graffiti legal e ilegal, a paisagem das polis contemporâneas.

 

Seja nos escritos urbanos, nas palavras de protesto, legais ou ilegais, a juventude[iv] toma a cidade como suporte de sentimentos e lugar de grafia. Como diz um escritor, o Roland Barthes,[v] a cidade é linguagem composta por códigos, por vias que se comunicam, por idiomas, emblemas visuais, vestígios de anseios de amor, revolta e ódio. Se a cidade cala, a linguagem adormece. Por meio dos graffiti[vi], a paisagem urbana é potencializada por intensos significados sociais, convocando o olhar de quem por ela passa.

 

E por qual motivo início assim essa conversação, destacando o impacto dos graffiti nas cidades protagonizados pela juventude? Faz parte de uma pequena história. Aportei em Lisboa em janeiro de 2013[vii], com o objetivo de pesquisar a arte urbana e o graffiti durante todo o correr deste ano. Mais do que resultados fechados de pesquisa pretendo aqui partilhar impressões e versões entrecruzadas de diálogos travados com street artists (artistas de rua) e por meio de outros atores locais.

 

Há uma peculiaridade das dinâmicas juvenis na cidade de Lisboa que continuamente me chama atenção: um modo de se expressar por meio de muros e, ao mesmo tempo, presencialmente, combinar uma peculiar economia das palavras, uma forma mais branda de linguagem gestual. Parece-se escutar por meio das paredes, utilizando-me de metáforas, gritos, revoltas, paixões, ódios, anseios de revolução, frustrações e vontades. Isso me intrigou tanto que passei a fotografar, além do meu interesse específico por arte urbana e graffiti, escritos disseminados por todos os sítios por onde caminhava.

 

E aqui vou me voltar para um componente mais específico dessa ampla observação: a crise econômica (e creio que se estende para além desse aspecto) que atingi de forma drástica a juventude[viii] e assola quase toda a Europa e, particularmente, Lisboa. O que faz ecoar as inscrições juvenis que tanto têm marcado o texto urbano dessa cidade?

 

Fui percebendo que o graffiti em Lisboa significa bem mais que uma forma de expressão, de comunicação como, também, um efetivo modo de participação juvenil. Provavelmente, em contraposição à uma certa recusa dos conflitos mais aguerridos, de confrontos mais violentos, diante de crise que altera de forma drástica o cotidiano de maior parte das famílias, os jovens de Lisboa participam temores, medos, revoltas e protestos em paredes, muros, vitrinas, postes de iluminação; onde houver suporte para que os sentimentos e ideias possam fluir e serem compartilhados.

 

Uma publicação recente do filósofo José Gil, acerca de Portugal Hoje e o medo de existir[ix], inicia-se com uma frase de graffiti escrita na escadaria de Santa Catarina, no elevador que desce para a Bica: Em Portugal nada acontece, não há drama, tudo é intriga e trama”. E durante quase toda a obra, José Gil persevera na ideia de que Portugal é um país da não-inscrição de manifestação possível do desejo. Talvez, por caminhar e observar tão intensamente esses quatro meses essa cena social, na condição de estrangeira, e tanto anotar como registrar, permito-me discordar um pouco das linhas traçadas por José Gil. No que tange às inscrições do graffiti, protagonizados essencialmente por uma juventude drasticamente marcada pela atual crise, considero sim a arte urbana um Acontecimento, um modo sui generis de inscrição social; mesmo que, em algumas circunstâncias, como no graffiti ilegal, isso ocorra às avessas. [x] Percebo que os suportes físicos e materiais de Lisboa se condensam como vasto chão de participação, de inscrição, tendo a juventude como ator sintagmático.

 

E aqui trago para reforçar à cena de discussão a visão de Tinta Crua[xi],um jovem artista que vem há alguns anos deixando seu “silêncio”, o “temor de existir” estampado em estêncis por lugares emblemáticos da capital de Portugal.

 

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[xii]

 

Ao ser indagado sobre o cenário da cidade, numa entrevista realizada recentemente, onde pergunto se o graffiti potencializou-se com a atual crise, Eduardo, o Tinta Crua diz:

 

Sim, sim floresceu bastante mais. E principalmente a primeira manifestação que houve que foi bastante grande. Não foi essa última que houve agora. Já existiam muitos, mas começaram a aumentar e eu acho que as pessoas também sentem necessidade, até certos artistas de graffiti de dar sua contribuição, como a caricatura do primeiro ministro feita pelo Nomen.

 

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Tinta Crua se refere a um mural pintado próximo das Amoreiras[xiii], em Lisboa, que retrata a chanceler Ângela Merkel (Alemã) a segurar os fios de marionetas de Pedro Passos Coelho (primeiro-ministro de Portugal) e de Paulo Portas (Ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros), em cima do palco. Além de advertir – Este mural foi realizado sem ajuda externa – o referido desenho traz uma indagação: “Quanto mais tempo querem ficar a assistir a este show. A nossa’ dívida continua a aumentar”. O mural foi pintado por Nomen, Slap e Kurtz, nos dias 20 e 21 de outubro de 2012. Essa forma de singular de participação urbana juvenil, por meio de grafias, murais e palavras de protesto evidenciou-se, ainda mais, nas proximidades do lendário 25 de abril, agora em 2013. Nos dias que antecederam essa data, no jornal do metrô, visualizava-se um curioso convite aos moradores de Lisboa, também, publicado em várias páginas do Facebook[xiv]:

 

A antecipar a chegada do “Lisboa, Capital, República, Popular”, que, anualmente, utiliza a arte como espaço de reflexão para as questões quentes da sociedade portuguesa da actualidade, o Musicbox criou uma galeria online que pretende mostrar de que forma anda “A Palavra na Rua”. Ajudem-nos, fotografando as frases que "ocupam" as paredes de Lisboa e publicando no Instagram com a “hashtag” #apalavranarua.

Esse chamamento público traduz e resume sobre o que venho discorrendo nessa conversação sobre graffiti e escritos urbanos juvenis em Lisboa: a força da palavra que ganha ruas, em cores e formas. A tonalidade do cravo parece permanecer viva nos imaginários desejos de liberdade que pontuam alguns murais e graffiti.

 

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[xv]

 

E é embalada por essa palavra adrenalizada, que flui para o burburinho das vias urbanas, que traspassa fronteiras e barreiras que pretendo finalizar essas anotações. A stret artist Tamara Alves[xvi] aponta outro olhar sobre a atual crise e as novas oportunidades que daí surgem.

 

As pessoas estão todas a começar a trabalhar em conjunto, ajudaram-se todas uns aos outros. Eu tenho um trabalho e vou chamar X amigos para fazer, porque sei que um vai fazer uma coisa, outro vai fazer outra. Temos sempre a ter pequenos ideias, pequenos negócios. Coisas com ideias muito simples mas que vão funcionar e todos ali em conjunto. Porque na realidade, não podemos mais trabalhar sozinhos, não podemos mesmo. Eu acho que a melhor parte disso tudo é o espirito comunitário. E eu lembro que pai disse, isso é mal, vocês estão todos desempregados mas, vai, vocês tanto tempo livre, apanhem sol, aproveitem, porque se calhar vocês nunca mais vão voltar a ter tanto tempo livre na vida. E aproveitem. Na realidade, nunca vi tanta gente a apanhar sol. Quando temos esse tempo livre pequenas coisas vão surgindo e aos bocadinhos vamos todos sobrevivendo.

 

A melhor parte disso tudo é o espírito comunitário, o reencontro do fazer coletivo, traduzido no simples ato de compartilhar o sol, de promover ações grupais, de se ajudar uns aos outros. A juventude tem, até mesmo por se encontrar no epicentro da crise, apontado formas outras de reinventar o tempo e assim deixar correr estratégias de criatividade e de reinvenção da vida. De todo modo, incomodando, embelezando, fazendo protesto, conspirando e degradando patrimônios histórico-culturais, produzindo estéticas de expressão mais ou menos artísticas; o graffiti, a street art, como diz Giorgio Agamben[xvii] sobre a arte em geral, aproxima o criador e seu conteúdo, o sujeito do seu fluxo criativo, o jovem da cidade que nela habita. Traduz uma forma singular de participação e de produção de um sentimento de pertencimento.

 

O autor já citado, José Gil, ao se indagar – de que se tem medo? – afirma que o mesmo tem uma função extraordinária, a de produzir um aspecto paralisante na agressividade social. A ousadia em realizar o ato ilícito do graffiti[xviii] em Lisboa se traduz em um multa que varia, podendo chegar a 1.500 euros, conforme me informou, Fidel Évora, um street artist que reside em Barreiro. De acordo com uma notícia recente[xix], do dia 24 de fevereiro, jovens foram condenados por grafitar em Lisboa:

 

As penas aplicadas foram as de multa, entre os 850 e os 1050 euros, uma delas substituída por 170 horas de trabalho a favor da comunidade e outra a 210 horas de trabalho a favor da comunidade.

 

Essas ocorrências, nesses poucos meses que aqui me encontro, parecem ser constantes. Deve-se então se indagar, para onde se revela o medo diante de uma inusitada coragem de setores da juventude em ações que lhe tem gerado tantos ônus? Certamente, as práticas do graffiti suscitam uma cabível interrogação: que estratégias e artimanhas de participação, mobilizam a juventude, atualmente, em Lisboa, a transpor o temor e o silêncio da crítica paisagem política dessa cidade?

 

Se a partir desse texto considerarmos que a palavra participação, seja no âmbito da cidadania, ou da esfera política, apresenta-se sob faces diversas, não apenas na esfera da condição juvenil, refletiremos um pouco mais ao nos reportarmos a Portugal como o país que tem medo de existir. E, enfim, repararemos nas cidades invisíveis[xx] que coexistem na imensa Lisboa.  

 

 



[i] Professora Doutora do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará, Investigadora Visitante no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

[ii] Itinerários de Corpos Juvenis: o jogo, a festa e o tatame. São Paulo: Annablume, 2003.

[iii] James Hillman, Cidade & alma, São Paulo: Studio Nobel, 1993, p. 75.

[iv] Utilizo a categoria juventude para além de um mero intervalo etário ou geracional, parto do que se pode considerar um estilo de vida marcadamente jovem” que varia muito, podendo ultrapassar, em alguns casos, os quarenta anos. Ver o texto de MENDES DE ALMEIDA, Isabel. Criatividade contemporânea e os redesenhos das relações entre autor e obra: a exaustão do rompante do criador. In: PAIS, José Machado e MENDES, DE ALMEIDA Orgs, Criatividade, Juventude e Novos Horizontes Profissionais, Rio de Janeiro: Zahar, 2012. P. 22

[v] BARTHES, Roland. A aventura semiológica, Lisboa: Edições 70, 1987.

[vi] Leitura imprescindível para quem pretende aprofundar-se na temática é o livro de Ricardo Campo, Por que pintamos a Cidade? Lisboa: Fim de Século, 2010.

[vii] Desde o início da observação, desenvolvo um blog denominado AntropologiZZZando, aberto à participação e trocas.

[viii] Notícia de 08 de maio de 2013 assinala que “a taxa de desemprego entre os jovens em Portugal continua a agravar-se e chegou no primeiro trimestre aos 42,1%, afetando 165,9 mil pessoas entre os 15 e os 24 anos, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE).

[ix] Lisboa: Argumentos, 2012.

[x] Sobre inserção social às avessas” ver o livro Cartografias da Cultura e da Violência: gangues, galeras e o movimento hip hop, da autora do texto. São Paulo: Annablume, 1998.

[xi] Mais informações sobre o trabalho de Tinta Crua no blog AntropologiZZZando.

[xii] Ilustração disponível no perfil do Facebook de Tinta Crua.

[xiii] Imagem retirada do blog Universo Paralelo.

[xiv] Ver, por exemplo, na página do Clube MusicBox.

[xv] ilustração da página do Facebook de Tamara Alves.

[xvi] Uma visão mais ampliada da artista Tamara Alves no blog AntropologiZZZando.

[xvii] AGAMBEN, Giorgio. O homem sem conteúdo, Belo Horizonte: Autêntica, 2012.

[xviii] Ver artigo "Jovens Condenados por pintar graffiti no metro de Lisboa" do suplemento P3 do jornal Público.

[xix] Ver artigo "Jovens Condenados por pintar graffiti no metro de Lisboa" do suplemento P3 do jornal Público.

[xx] Uma alusão ao livro de Ítalo Calvino, As Cidades Invisíveis, São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

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