OLHARES SOBRE JOVENS

Março 2012 - Os Jovens Portugueses perante a Desigualdade

 




FILIPE CARREIRA DA SILVA (ICS-UL)
MÓNICA BRITO VIEIRA (ICS-UL)
SUSANA CABAÇO (Universidade de Essex)*


O PROBLEMA


Em plena crise económica e financeira – uma das piores desde a Grande Depressão – não é surpreendente que a desigualdade esteja no centro das preocupações, quer da população em geral, quer das próprias elites, que se vêem a braços com um forte declínio na confiança pública nos governos e no próprio sector financeiro e empresarial. No início de 2008, a BBC levou a cabo uma sondagem de opinião em 34 países, com quase dois terços dos inquiridos a mostrarem-se especialmente preocupados com a desigualdade da repartição do rendimento e riqueza nos seus países. Entre os portugueses, este valor subia para mais de 80%, colocando-nos a par de países como Coreia do Sul, Turquia e Itália1.

Estes dados são, aliás, congruentes com os registados noutros estudos de opinião, incluindo o presente estudo do ICS sobre qualidade da democracia2, em que a pobreza e a exclusão social são o segundo problema mais referido pelos inquiridos, apenas atrás do desemprego (ele próprio um dos factores geradores de pobreza e exclusão). Existem certamente razões para esta preocupação com pobreza e desigualdade em Portugal. Para além de registar uma taxa de pobreza superior à média europeia, com quase 18% da população em situação de pobreza em 2008, mesmo depois de contabilizadas as transferências sociais, Portugal é também um país profundamente desigual do ponto de vista da distribuição do rendimento. Em meados desta década, o nosso coeficiente de Gini encontrava-se 24% acima da média da OCDE, sendo só inferior aos registados pelo México e a Turquia3. Entre os 27 países membros da União Europeia, apenas Letónia e Lituânia são mais desiguais do que o nosso país, que apresenta um perfil de distribuição de rendimento altamente assimétrico: em 2008, os 20% mais ricos auferiam 43.2% do rendimento disponível, a percentagem mais elevada da UE-27, ao passo que o rendimento disponível pela demais população estava consistentemente abaixo do auferido nos demais países da UE.




OS PORTUGUESES PERANTE A DESIGUALDADE


Os portugueses são dos povos que no mundo mais preocupação revelam com o nível de desigualdade apresentado no seu país. Mas será que esta preocupação é sentida por todos os portugueses de igual forma? Noutras palavras, como se distribuem as atitudes perante a desigualdade pela população? Os dados recolhidos são claros: é possível verificar que as opiniões dos portugueses quanto à desigualdade variam significativamente de grupo para grupo, sendo que estas opiniões são igualmente sensíveis ao tipo concreto de desigualdade que está em questão. Isto é, nem todas as formas de desigualdade são consideradas igualmente problemáticas (algumas até serão percebidas como desejáveis, porquanto ligadas ao mérito e ao esforço), e a posição relativa de cada grupo na sociedade portuguesa determina igualmente em boa medida a respectiva percepção deste problema – quanto maior a distância entre ricos e pobres for percepcionada como sendo muito significativa (sobretudo, se for considerada ilegítima), maior relevo será conferido a esse problema. Neste ponto, é importante recordar que quase todos os inquiridos portugueses, em linha com o que se passa noutros países, se tende a posicionar subjectivamente na “classe média”, o que equivale a dizer, mais ou menos a meio da distribuição de rendimentos da nossa sociedade. Este auto-posicionamento subjectivo contrasta com a alocação de lugares na escala de rendimentos pelo cientista social, para quem a “classe média” portuguesa, consoante o modelo analítico empregue, varia aproximadamente entre um terço e pouco mais de metade da população portuguesa. A verdade, porém, é que a esmagadora maioria dos inquiridos responde às questões que lhes são colocadas a partir desta posição intermédia a que julga pertencer.

Este facto é de salientar na medida em que tem um impacto não negligenciável sobre as percepções individuais e de grupo sobre a desigualdade. Isso mesmo foi tido em conta aquando da formulação das perguntas, que perguntava aos inquiridos qual o seu nível de concordância com as seguintes afirmações:


A) As pessoas de classe média estão a viver tempos muito difíceis, porque não têm acesso nem às recompensas dos ricos nem aos apoios recebidos pelos mais pobres;

B) As pessoas mais ricas estão a viver tempos muito difíceis, porque trabalham muito, vivem sob grande pressão e têm maiores responsabilidades;

C) As pessoas mais pobres estão a viver tempos muito difíceis, porque não têm acesso às recompensas dos ricos e são pouco apoiadas socialmente.

Assim, quando questionados sobre quais os grupos sociais que estarão a atravessar maiores dificuldades no contexto da actual crise económica, os inquiridos portugueses distinguiram claramente entre aqueles que viam como estando acima de si, aqueles que consideravam estar num mesmo patamar social, e aqueles que entendiam estar numa situação mais desfavorável do que a sua. E se foram particularmente solidários com estes últimos – 82% dos inquiridos concordaram com a afirmação de que são as pessoas mais pobres que estão a atravessar tempos mais difíceis – mostraram-se já bastante cépticos quanto às dificuldades que a crise colocaria aos mais ricos. Uma clara maioria, de 61% dos inquiridos, discordou da afirmação de serem as pessoas mais ricas quem está a viver tempos mais difíceis, em razão das particulares pressões e responsabilidade que sobre elas recaem. Em contraste com este cepticismo relativamente aos que estão acima de si, uma muito expressiva maioria dos portugueses – 70% – considera que é a classe média (aquela em que se localizam) que mais está a sofrer mais neste período de crise porque não tem acesso às recompensas dos ricos nem às prestações sociais dos mais pobres.


OS JOVENS PORTUGUESES PERANTE A DESIGUALDADE


Será que as opiniões sobre desigualdade são independentes da idade que temos, de sermos de esquerda ou de direita, homens ou mulheres, vivermos num meio predominantemente urbano ou rural? Não – quem somos e o que fazemos, as nossas crenças e valores, dão-nos pistas importantes para percebermos melhor o que está na origem das nossas atitudes diferenciadas sobre a desigualdade e, mais do que ela, sobre a desigualdade enquanto problema.

Um resultado interessante deste estudo diz respeito às atitudes dos jovens portugueses perante os mais pobres. Com efeito, quando aplicamos o nosso modelo à questão de se saber se os mais pobres são os mais afectados pela crise revela que o desacordo é tanto mais elevado quanto o respondente seja jovem, quanto mais baixo seja o seu estatuto social, quanto mais costume ir à igreja, e seja a favor da ilegalização do aborto. Este resultado é curioso, e é-o em várias frentes, que exigem mais aturada discussão.
































Se são os mais jovens que menos peso atribuem às dificuldades dos mais pobres, talvez a sua atitude esteja parcialmente explicada pela seu auto-posicionamento subjectivo na classe média, pela forte incidência do desemprego jovem, pela precarização do trabalho, e pela apreensão quanto ao seu próprio futuro, designadamente em termos da existência das prestações e apoios sociais que hoje assistem à classe média e aos mais pobres. Por sua vez, a ida frequente à igreja e a posição pró-vida desenham, na escala dos valores, um perfil conservador que se coaduna bem com uma tendência para a responsabilização individual pelos sucessos e insucessos de cada um e para a associação destes resultados com o “querer-se ou não trabalhar”. E, por fim, a falta de empatia dos inquiridos de menor estatuto social para com as dificuldades dos mais pobres, que serão muito possivelmente dificuldades análogas às suas, parece relevar de uma resistência das pessoas socialmente mais desfavorecidas em abrir mão do seu auto-posicionamento subjectivo na classe média. Fazê-lo seria em muitos casos equivalente a pôr a descoberto uma pobreza escondida, e a assumir as dificuldades por que estão a passar. Esta insistência no posicionamento a meio da tabela de rendimento pode também ter origem no simples desconhecimento das condições de vida das classes mais favorecidas ou numa estratégia cognitiva defensiva, orientada à redução das aspirações e à maximização da satisfação presente com o (pouco) que têm.




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* Responsável pela análise de dados (análises de regressão).
 1 Veja-se www.worldpublicopinion.org/pipa/pdf/feb08/BBCEcon_Feb08_rpt.pdf.
 2 Barómetro da Qualidade da Democracia, Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
 3 Veja-se OCDE (2008), Growing Unequal? Income Distribution and Poverty in OECD Countries. OECD Publications., 2008: 25.


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