OLHARES SOBRE JOVENS

Novembro 2013 - Injustiça(s) nas escolas: o olhar dos alunos

 


José Manuel Resende

CESNOVA/FCSH-UNL ( Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar )

Luís Gouveia

CESNOVA-UNL ( Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar )




1.

É na base de uma investigação realizada com o intuito de compreender os julgamentos dos professores do Ensino Secundário durante o período político do Estado Novo (de 1926 a 1974) relativamente às formas de grandeza da sua profissão (Resende, 2003) que são construídos os alicerces de uma abrangente programa de investigação – designado "Fazer, (des)fazer e (re) fazer o comum nas socialidades modernas: controvérsias, vulnerabilidades e reconhecimentos em mundos plurais" – e que no domínio específico de uma sociologia da escola e das sociabilidades escolares procura analisar os sentidos de justiça e os sentimentos de injustiça manifestados por professores e alunos em diferentes instituições de ensino secundário.

Já numa investigação realizada também entre 2004 e 2007 verificou-se a existência de um elevado sentimento de injustiça entre os estudantes matriculados em 4 escolas secundárias, localizadas em diferentes municípios do País e com morfologias sociais contrastantes (Resende, 2010) – verificando-se também variações significativas em função do género e origem social dos alunos.

Perante estes resultados, uma nova pesquisa foi realizada entre 2009 e 20111 e com um objeto alargado: relacionar os sentimentos de injustiça na construção da identidade de género com os sentimentos de humilhação e de não reconhecimento que os processos de injustiça possam eventualmente suscitar entre os alunos – análise feita, quer no plano das sociabilidades escolares desenvolvidas pelos alunos entre si, quer nas relações entre alunos e docentes.

A opção de colocar o enfoque analítico no plano das injustiças e nas experiências de justiça vivenciadas pretende constituir um meio facilitador de acesso às operações críticas dos atores sociais relativamente às conceções do justo na construção da vida em comum no espaço escolar; a denúncia do carácter injusto de uma situação descrita fornece em si a base para se compreender os sentidos de justiça dos atores relativamente às formas de agir em comum nas sociabilidades escolares.

Neste questionamento em torno das injustiças escolares ressaltam denúncias não apenas normativamente orientadas pelo prisma da igualdade – denúncias de situações de desigualdade (perspetivadas como injustas pelos denunciantes) – mas igualmente perante situações de natureza discriminante e humilhante.

Como este intuito, foi então realizado um estudo etnográfico em 6 escolas do Ensino Secundário localizadas em diferentes localidades do território de Portugal e com populações estudantis socialmente contrastantes: a escola A, no centro-norte de Portugal, destaca-se pela combinação de alunos oriundos das classes populares ligadas à agricultura e a pequenas empresas, bem como pelas baixas qualificações escolares dos progenitores; a escola "B", no município de Lisboa, apresentam um perfil de alunos predominantemente oriundos das classes populares; a escola "C", também no município de Lisboa, apresenta um perfil de alunos da classe média e média alta, com elevadas qualificações escolares; a escola "D", num distrito contíguo ao município de Lisboa, é frequentada por um perfil de alunos maioritariamente da classe média; por fim, tanto a escola "E" – no município de Oeiras – como a "F" – no interior-sul de Portugal (distrito de Portalegre) – apresentam um perfil de alunos predominantemente oriundos das classes populares.

O trabalho de campo assentou particularmente em duas técnicas de observação: de um lado, entrevistas semi-diretivas (65 realizadas) a discentes a frequentar o 12º ano de escolaridade; do outro lado, inquérito por cenários a alunos matriculados no mesmo ano (ao todo, 716 inquéritos foram validados). No caso deste instrumento, foram também aplicados os mesmos inquéritos aos docentes dessas escolas que lecionam no 12º ano. Privilegiam-se neste texto algumas das conclusões retiradas das entrevistas realizadas.


2.

Na análise das sociabilidades escolares devem necessariamente ser tidas em conta as transformações ocorridas no sistema educativo português nas últimas décadas. No quadro de uma dinâmica transversal aos vários países europeus (mas com ritmos e temporalidades diferentes), novos públicos escolares, oriundos de meios sociais e étnicos mais afastados do universo cultural transmitido na instituição escolar, passam a protagonizar percursos escolares mais longos no sistema de ensino – trajetórias das quais estavam até então apartados (Resende, 2010). A este esforço de massificação da escolaridade corresponde uma orientação política centrada no modelo de desenvolvimento económico; o desígnio de progresso nos indicadores de escolaridade serve o horizonte de melhoria do desempenho económico do país.

Esta evolução no que respeita à escolaridade acarreta necessariamente importantes mutações nas sociabilidades dentro do espaço escolar em virtude da diversidade na composição morfológica que nele passa a observar-se.

Além de segmentos de alunos pertencentes a classes sociais mais desfavorecidas, o número de alunos de nacionalidade não portuguesa aumenta nos estabelecimentos de ensino, no qual, além de constituir um grupo onde se verifica frequentemente um afastamento intergeracional em relação à instituição escolar, um diferencial entre a língua que estes alunos cultivam no espaço doméstico e a que é lecionada nas escolas dificulta o seu ajustamento à cultura escolar (Resende, 2010).

Por outro lado, a mesma cultura escolar é fragilizada pelo consumo de produtos culturais provenientes dos novos suportes de difusão de informação dos meios de comunicação de massa. Estas indústrias culturais têm nos jovens os seus potenciais consumidores e assumem particular importância na configuração das sociabilidades dos adolescentes e jovens na escola e na sua resistência face aos saberes que esta instituição valoriza (Barrère, 2002). Acresce pois para os professores um trabalho de motivação de alunos que evidenciam uma relação débil com os conteúdos disciplinares que são lecionados – tanto na preparação dos suportes pedagógicos como na própria avaliação.

Neste quadro de massificação, a homogeneidade de valores e princípios da instituição escolar é enfraquecida e o seu programa institucional dissolve-se progressivamente, mais aberto ao ambiente exterior. No seu espaço, a homogeneidade de valores e identidades dá lugar a lógicas de ação contraditórias, situadas em racionalidades plurais (Dubet, 2002). Os atores estão pois entre diversas normas de justiça e levados a engajar-se num trabalho de justificação contínuo e de construção permanente deles próprios. Numa escola de massas, a relação entre alunos e os estudos é igualmente necessariamente mais instrumental que numa escola de elite. Perdendo o diploma do ensino secundário o seu valor de distinção cultural, os alunos questionam mais explicitamente a sua utilidade. Também a própria cultura escolar sai enfraquecida pela cultura de massas. Com uma população escolar com maior espaço de autonomia nas suas escolhas culturais, as escolas tornam-se espaços privilegiados de uma vivência juvenil marcada pelos laços de amizade e onde pulula uma diversidade de gostos e distinções de visuais e produtos culturais destinados a esta faixa etária (idem).

Compreender as sociabilidades escolares implica pois considerá-las num contexto de massificação e consequente maior diversidade na população escolar e nas trajetórias dos alunos de modo a compreender os novos moldes em que assentam as sociabilidades entre professores e alunos e na construção da vida em comum dentro do espaço escolar.


3.

Sendo objeto da pesquisa analisar os sentimentos de humilhação e de não reconhecimento que os processos de injustiça possam eventualmente suscitar entre os alunos no espaço escolar, a experiência do não reconhecimento assenta em princípios de justiça díspares (Dubet, 2007). O reconhecimento não constitui em si um princípio de justiça. Se a experiência emocional de não-reconhecimento é homogénea, os princípios de justiça em que ela se apoia podem ser divergentes.

Analisando as experiências escolares a partir da perspetiva dos alunos, percebemos que os princípios de justiça que entram em linha de conta pelos alunos vão para além da questão do mérito e da justiça distributiva relativamente às classificações escolares e na orientação escolar – princípio presente eminentemente na perspetiva dos professores e encarregados de educação em torno da justiça escolar. Uma análise das perspetivas dos alunos na modelação da sua experiência no espaço escolar implica a adoção de um olhar não adultocêntrico (Rayou, 2005) fim de se aceder às categorias específicas da experiencia social adolescente e juvenil – às suas formas de viver em conjunto, e aos conceitos de justiça e lógicas de ação que sustêm os seus comportamentos e condutas.

Ora, analisando a perspetiva dos alunos, percebe-se que a questão da justiça escolar não se reduz à dimensão do mérito. Nomeadamente, verificamos que o princípio da igualdade e do respeito assumem particular centralidade nos juízos críticos dos jovens relativamente ao funcionamento do estabelecimento de ensino e à organização das convivialidades no seu seio (Dubet, 2009).

Em primeiro lugar, verifica-se que os alunos julgam a sua situação dentro do espaço escolar em função também do princípio da igualdade. Constituindo uma comunidade juvenil crescente com a massificação escolar, os alunos entendem que devem ser tratados como iguais – sem hierarquias ou qualificações escolares. Esta perspetiva surge patente nas diversas entrevistas realizadas, como este exemplo pretende ilustrar:

"Eu acho que depende de professor para professor. Depende. Os professores têm sempre os que põem no top, no "topo", entre aspas, e então, sei lá... Como o professor de História, ele tem os favoritos, então dá aula para uma metade da turma, para um lado e depois o outro lado, faz o que quer. Não é bem ignorar. Só que ele ao posicionar-se na sala posiciona-se mais para um lado porque tem os alunos que ele quer. São aqueles que vão ao apoio, e aqueles que não vão ao apoio são excomungados. Porque ele dá aulas para uma metade e outra metade não."
(Género Masculino; 19 anos; Escola "E"; curso de Línguas e Humanidades)

Por outro lado, esta questão da igualdade surge nas denúncias dos alunos enquanto condição preliminar para medir o mérito. Este segundo princípio é posto em causa quando os professores são suspeitos de terem alunos favoritos, de não serem escrupulosos na avaliação quando os alunos comparam as notas que lhes foram atribuídas. Para os alunos é inaceitável a presença de fatores que condicionam a objetividade dos juízos escolares, como estados de humor docentes, afinidades ou o comportamento dentro da sala de aula – critérios não relacionados com a capacidade dos alunos e desempenho em cada disciplina. É por essa razão que a maior parte dos alunos deseja que a intervenção destes fatores seja neutralizada através de provas formalizadas e de raiz "escolar" – salvaguardando os riscos de arbitrariedade (Dubet 2009). Esta defesa da maior objetividade possível na avaliação e referência injustiças geradas nas classificações atribuídas está frequentemente presente nos discursos de denúncia dos alunos:

"Eu normalmente tenho boas notas e irrita-me um bocado eu andar-me a esforçar o ano todo [...] ver que eu dei o litro e que me esforcei muito mais que os outros e outa pessoa qualquer chega ao professor e pela maneira como fala com o professor e pelas coisas que diz tem a mesma nota que eu. E isso, pronto, claro que é assim: não me prejudica diretamente porque eu não deixo de ter a nota pela outra pessoa ter, mas dá-me um bocado cabo... dá-me um bocado cabo da cabeça, não é?"
(Género feminino; Escola "D"; curso de Ciências e Tecnologias)

Ora, o princípio da igualdade de tratamento surge também nas denúncias dos alunos intimamente ligada ao princípio do respeito. O respeito é um princípio particularmente invocado pelos alunos quando estes se exprimem sobre o justo no âmbito das atividades escolares e nas várias situações de interação nestas ambiências onde as questões da justiça estão envolvidas. Como refere Rayou (2007) pode-se mesmo falar de uma hipertrofia da perspetiva do respeito nas leituras críticas dos alunos às contradições testemunhadas no funcionamento do estabelecimento de ensino e na relação com os docentes.

Os alunos reivindicam concretamente o respeito como princípio de justiça assegurador da sua dignidade enquanto indivíduos, independentemente das diferenças nos desempenhos escolares ou outros critérios. Podemos definir o respeito enquanto posição prática na primeira pessoa que consiste na limitação desta da sua liberdade de ação de modo a não atentar contra o valor eminente que ela reconhece a uma pessoa ou a um objeto (o que uma outra pessoa atribui a um objeto) (Pharo, 1997).

Nas sociabilidades escolares, o respeito assume a forma de reconhecimento da autoridade do professor mas com o pressuposto de reciprocidade. A ordem hierárquica vertical no espaço escolar parece ser substituída por uma ordem negociada (Resende, 2011). A normatividade previamente vigente no que respeita à relação de autoridade entre aluno e professor dá lugar a uma relação em novos moldes. Sem contestar a autoridade do professor, os alunos orientam-se pela expectativa de uma relação pedagógica de respeito mútuo.

Esta ética de relacionamento surge ilustrada neste excerto:

"E é assim, eu pessoalmente não me calo, tenho que dizer as coisas na cara, mesmo que seja... Pode ser professor, pode ser o papa, pode ser a minha mãe, pode ser o pai, há que haver respeito e eu tive ao ponto de me pôr em cima da cadeira para o stôr me ouvir, porque eu falava com ele simplesmente virava a cara e começava a falar com outro colega. Isto é uma falta de respeito tremenda, portanto... Para ver, pronto, isto é... Agora já é muito diferente. [...] Os professores continuam iguais, os alunos é que mudaram, porque os alunos calavam-se, ficavam no seu canto. Agora não. Agora é completamente diferente, já reagem, já vão à luta, já querem pedir satisfações: "porque é que deu isto?", "porque é que deu isto?", "não fale assim."
(Género feminino; Escola "E"; Técnico de Gestão de Sistemas Informáticos)

É também sob a gramática do respeito que as operações críticas dos alunos são direcionados para situações de humilhação. Se os alunos vivem a inferioridade da sua grandeza numa escola através da forma como são tratados no quotidiano pelos adultos – particularmente na figura dos professores –, são frequentes as denúncias dos alunos direcionadas a situações de desrespeito por parte dos docentes perante vulnerabilidades evidenciadas pelos alunos:

"Tinha uma colega minha que era assim mais cheiinha e nós 'tavamos a correr, até 'tavamos a fazer a avaliação dos doze minutos e ela houve uma altura em que ela 'tava cansada e parou e a professora virou-se para ela e disse "Mexe esse rabo". Acho que isso não é de todo agradável. [...] Mas isto até pode ser prejudicial e psicologicamente [...] Até para o professor, não fica bem."
(Género feminino; Escola "D"; curso de Línguas e Humanidades).


4.

Através desta análise sucinta pretende-se demonstrar a importância de um olhar "não-adultocèntrico" (Rayou 2005) sobre as sociabilidades escolares. Na escola democrática é necessário ter em conta outros critérios de justiça para além do mérito; é necessário ter em conta outras dimensões da vivência escolar. Tendo em conta o olhar crítico dos alunos, a escola não deve apenas garantir o mérito. É necessário considerar também a igualdade no tratamento dos alunos por parte dos professores e, particularmente, o respeito pela figura do aluno (Dubet, 2009). A construção da vida em comum na escola implica por parte do corpo docente uma atenção para além apenas da justiça na atribuição das notas. O critério do respeito em particular está na génese dos sentimentos de injustiça e de humilhação experimentados pelos alunos no estabelecimento de ensino. Se o mérito e a igualdade não deixam de ser elementos estruturadores dos seus juízos críticos relativamente ao funcionamento da instituição escolar, são as ações de desrespeito que parecem ocupar particular centralidade nos sentimentos de injustiça expressos pelos alunos (Desvignes e Meuret, 2009).

Notas:

1 Projeto financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT-MCTES) "Género, Desigualdade e Humilhação: sentimentos de injustiça nas escolas", aprovado em 2008 com a referência PIHM/GC/0085/2008

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BARRÈRE, A. (2002), Les enseignants au travail. Routines incertaines, Paris, L'Harmattan.

DESVIGNES, S. e D. Meuret (2009), "Les sentiments de justice des élèves en France et pourquoi", in M. Duru-Bellat et D. Meuret (dir.), Les sentiments de justice à et sur l'école, Bruxelles, Éditions De Boeck.

DUBET, F. (2002), Le déclin de l'institution. Paris, Seuil.

DUBET, F. (2007), "Injustices et reconnaissances", in A. Caillé (dir.), La quête de reconnaissance. Nouveau phénomène social total, Paris, Éditions La Découverte.

DUBET, F. (2009), "Conflits de justice à l'école et au-delá", in M. Duru-Bellat et D. Meuret (dir.), Les sentiments de justice à et sur l'école, Bruxelles, Éditions De Boeck.

PHARO, P. (1997), "Introduction: Justice et respect", Sciences Sociales et Santé, 15 (1), pp. 9-19.

RAYOU, P. (2005), "Crianças e jovens, atores sociais na escola. Como os compreender?", Educação e Sociedade, 26, pp. 465-484.

RAYOU, P. (2007), "De proche en proche, les compétences politiques des jeunes scolarisés", Éducation et Sociétés, 19 (1), pp. 15-31.

RESENDE, José (2003), O engrandecimento de uma profissão. Os professores do ensino secundário público no Estado Novo. Lisboa, Fundação para a Ciência e a Tecnologia & Fundação Calouste Gulbenkian.

RESENDE, José (2010), A Sociedade contra a escola? A socialização política escolar num contexto de incerteza, Lisboa, Edições Piaget.

RESENDE, J. M. (2011), "Habitar a Escola? Reflexões sociológicas sobre o princípio da ordem hierárquica e o princípio da ordem convivencial na escola secundária portuguesa", in Resende et al. (orgs), I Encontros de Portalegre: Pluralidades públicas do público? Controvérsias em educação, saúde e nos modos de ser solidário, Portalegre, Centro Interdisciplinar de Investigação e de Inovação do IPP, pp. 191-223.

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