OLHARES SOBRE JOVENS

Novembro 2014 - Vantagem na diversidade

 

Vantagem na diversidade: identidade, transições e orientações de futuro dos jovens descendentes de imigrantes com origem mista


Sandra Mateus (CIES, ISCTE-IUL)



Notas iniciais

Na produção cientifica nacional e internacional, os descendentes de imigrantes têm sido retratados como jovens numa experiência de transição cumulativa particularmente intensa: transição entre quadros culturais e espaços geográficos, transição entre ciclos de ensino, transição para a idade adulta. Constituem-se como objecto sociológico não só a partir das lentes da desvantagem e vulnerabilidade, mas também da vantagem, pela sua capacidade de tradução, inovação, rutura, e questionamento dos laços e territórios alargados em que se filiam. As suas filiações são múltiplas, sociais e culturais, construídas por opção e constrangimento, por herança e eleição, e marcam a relação com espaços institucionais como a escola.

São frequentemente analisados como um grupo homogéneo, a partir da sua origem estrangeira. A sua identificação é um processo atravessado por problemas como a mistura de estatutos e categorias numa mesma designação, a prioridade dada à nacionalidade, e os problemas existentes com as fontes estatísticas oficiais (Machado e Matias, 2006; Mateus, 2013). Na realidade, e como poderemos ver adiante, sob a designação "descendentes de imigrantes" encontramos, no contexto nacional, grupos diferenciados do ponto de vista do legado cultural, dos trajectos realizados na sociedade portuguesa, e das orientações de futuro. Neste texto centramo-nos num segmento específico desses jovens: aqueles de "origem mista", com um progenitor estrangeiro e outro progenitor autóctone, protagonistas por excelência das identidades fluidas, plurais e complexas da contemporaneidade. Trata-se de um grupo pouco visível nos estudos realizados em Portugal, mas que revela vantagens distintivas, singularidades que justificam um olhar analítico mais atento. A análise irá centrar-se em algumas das caraterísticas dos seus perfis e nas suas orientações de futuro. Tem por base um estudo de tipo comparativo, multi-método, realizado no ano letivo 2006/2007, que abrangeu 1194 jovens alunos do 9º ano (405 descendentes de imigrantes), em 13 escolas, nos distritos de Lisboa, Setúbal e Faro, bem como a realização de um conjunto de entrevistas a agentes escolares, jovens descendentes e seus progenitores (Mateus, 2014; Seabra e outros, 2011). Pretendeu expandir o conhecimento e a compreensão das aspirações escolares e profissionais e equacionar, através de vários ângulos complementares, uma das mais importantes vertentes dos modos de relação dos jovens com a escola – a construção de um projeto de futuro – no âmbito da matriz social e culturalmente complexa, plural, que carateriza as sociedades contemporâneas e os seus espaços educativos.

Uma presença crescente nas sociedades avançadas

Os jovens de origem imigrante constituem uma proporção assinalável e crescente da população nas sociedades avançadas. Segundo os dados relativos ao Inquérito PISA 2009, os estudantes de origem imigrante representam em média 10% dos jovens inquiridos. Na UE-27, cerca de 9,3% dos jovens têm este perfil. Em Portugal, a sua percentagem é 5,5% (OECD, 2012). O grupo de origem maioritário é proveniente do Brasil (25,1%), seguido de Cabo Verde (14,7%) e Angola (10,4%) (GEPE, 2011). Na realidade, eles serão um coletivo mais vasto. Em 2010/11, num inquérito realizado aos alunos à entrada do secundário, cerca de 21,8% (14000 alunos) apresentavam uma origem étnico-nacional diferenciada, onde o grupo luso-africano era o mais expressivo (Machado e outros, 2011).

Categorizar os filhos de imigrantes

Este trabalho assenta, de partida, numa partição dos jovens segundo a sua origem étnico-nacional – consubstanciada a partir do local de nascimento de ascendentes de 1º e 2º nível, ou seja, progenitores e avós. Mas, inscrevendo-se na linha de reflexão de autores como Machado e Matias (2006), não ignora que os qualificativos "segundas gerações" ou "filhos de imigrantes" são, na realidade, oximoros. Eles têm o inconveniente de designar as populações a partir da experiência migratória dos seus pais ou avós, pressupondo que a experiência social dos últimos continua a influenciar o seu destino social. Mais ainda, tornando os filhos a objetificação da existência dos pais, abordando-os e observando-os retrospetivamente. Criando artificialmente, segundo De Rudder (1998), uma nova geração de imigrados, quando parte destes jovens nunca realizou uma trajetória migratória. Ou seja, imputando-lhes uma "exterioridade por continuidade genealógica".

As especificidades geracionais, e o modo como estas influenciam as trajetórias sociais, têm multiplicado as formas de partição deste grupo na literatura, com graus variáveis de consenso, convergência, agregação e divisão. Uma das mais frequentes corresponde ao lugar de nascimento, distinguindo os nascidos nos países de origem daqueles nascidos nos países recetores. Ambos partilham os desafios e constrangimentos tipicamente associados aos estatutos vulneráveis, mas os segundos têm vantagens: não experienciam a desorientação da chegada a um novo país, não têm de (re)aprender os modos de agir e regras culturais que tornam a vida previsível, não precisam de enfrentar o desafio de aprender uma nova língua, e têm vantagens do ponto de vista do estatuto jurídico. Em trabalhos mais recentes, a "geração 2.5" surge também individualizada, distinguindo os filhos de imigrantes com ambos os progenitores estrangeiros daqueles com apenas um progenitor estrangeiro e outro progenitor autóctone. Há razões pertinentes para distinguir os dois segmentos, já que os jovens que têm um progenitor autóctone têm mais probabilidade de se inserir em redes de sociabilidade nativas, com impactos nas trajetórias socioeconómicas e nas pertenças identitárias, e têm desempenhos escolares mais elevados.

Lentes sociológicas na observação dos descendentes de imigrantes

Alguns dos debates centrais na produção científica dedicada aos descendentes de imigrantes desenvolve-se justamente sobre a interrogação de como irão estes jovens "crescer" e incorporar-se nas sociedades de acolhimento. Irão incorporar o mainstream, acompanhando os seus pares autóctones, ou irão desenvolver trajetórias de (i)mobilidade específicas? A literatura balança entre um tom pessimista, focado na desvantagem e no risco de mobilidade descendente (Portes e Rumbaut, 2001; Portes e Zhou, 1993); e um tom optimista, focado nas vantagens distintivas e nos progressos realizados relativamente às gerações precedentes (Waters e outros, 2010; Kasinitz e outros, 2008). Na primeira perspectiva, encontramos diagnósticos centrados no risco de mobilidade descendente, de persistência da pobreza, e risco de "revolta". A segunda, de caráter mais estruturalista, salienta os aspectos positivos da vivência em espaços de referência transnacional. Sustenta que os descendentes revelam, em muitos domínios, vantagens relativamente aos seus progenitores, e demonstram capacidade de integração no mainstream social e económico através de modelos inovadores e criativos de adaptação. Kasinitz e outros (2008) defendem, neste sentido, que os filhos de imigrantes podem negociar diferentes combinações de vantagens e desvantagens imigrantes e nativas para escolher a melhor combinação entre elas. Como afirmam os autores:

"a capacidade de escolher os melhores traços dos seus pais imigrantes e dos seus pares nativos dá origem a distintas vantagens de segunda geração. (...) Crescendo numa sociedade diferente dos seus pais, eles sabem que têm de escolher entre modos nativos e imigrantes de fazer as coisas. Algumas vezes escolhem uma, outras vezes escolhem outra, e outras ainda tentam combinar o melhor dos dois mundos. Também tentam criar, às vezes, algo completamente novo. Nem sempre escolhem sabiamente, ou bem. Mas estão mais conscientes do que a maioria das pessoas de que têm uma escolha" (Kasinitz e outros, 2008: 20-21).

Heterogeneidade de perfis e condições

A partir das origens étnico-nacionais, das propriedades sociais e migratórias e dos trajectos escolares, foi possível identificar, na pesquisa realizada, 3 grupos de origem com perfis distintos entre os descendentes de imigrantes inquiridos: a) Origem PALOP, associada a uma população migratória com caraterísticas específicas relacionadas com a ligação histórica a Portugal, uma relativa continuidade cultural e linguística, e tempos de presença mais longos no contexto nacional (242 jovens); b) Origem mista, agrupando os inquiridos que têm um progenitor português e um outro progenitor de origem estrangeira, circunscrevendo pertenças mais complexas, repertórios alargados, posicionamentos mais fluidos (95 jovens); c) Outras origens, que reúnem os jovens dos movimentos migratórios mais recentes, com maior descontinuidade linguística, maior incidência de naturalidades e nacionalidades estrangeiras, e tempos de permanência mais curtos (68 jovens).

O universo de "descendentes de imigrantes" inquirido revelou, assim, uma considerável diversidade de caraterísticas e trajetos no seu interior. Apesar de a origem nacional predominante se centrar nos países africanos de expressão portuguesa, outras origens mostraram começar a marcar presença no final do ensino básico, nomeadamente o Brasil, a Ucrânia, Moldávia e Roménia (categorizados no grupo "outras origens").

No grupo com ascendência Mista, em foco neste texto, estão 95 jovens nascidos no seio de uniões exogâmicas, em que um dos países de naturalidade é Portugal. Predomina entre as mesmas a conjugação entre Portugal e um dos PALOP, espelhando a relação histórica e a presença consolidada destes migrantes. Vamos encontrar aqui uma significativa presença de luso-africanos (Machado, 1994); e em particular luso-angolanos (quase metade destes alunos). Mas encontramos ainda um conjunto de 20 alunos com origem em famílias que juntam um progenitor português e outro de origens como Venezuela, Índia, França, Inglaterra, Rússia, Espanha, Itália, Timor ou Zimbabué, entre outros, refletindo dinâmicas de emigração, interações europeias e outras, mais difusas, de natureza cosmopolita.

Um conjunto de indicadores relacionados com a origem migratória e com a pertença identitária dos jovens descendentes inquiridos podem ser observados no quadro 1. No que diz respeito aos jovens de origem mista, a percentagem de inquiridos com naturalidade estrangeira é particularmente baixa – quase 90% nasceu em Portugal. A nacionalidade portuguesa está também acima dos 90%, e a dupla nacionalidade é também mais elevada, revelando um relativo "conforto" estatutário. Entre os nascidos no estrangeiro, o tempo de permanência em Portugal é o mais longo.

Do ponto de vista identitário, os descendentes de imigrantes apresentaram uma multiplicidade de referências e sentimentos de pertença nacional, de caráter cumulativo, acionadas contextualmente e que tendem a variar de acordo com a nacionalidade. A sua amplitude é tanto maior quanto mais longo é o tempo de permanência em Portugal e os recursos detidos pela família. Naqueles com origem nos PALOP, os sentimentos de identificação e desidentificação são mais polarizados e circunscritos a Portugal e ao país de origem dos pais. Já nas origens mistas encontramos um sentimento português, europeu e cosmopolita mais forte e distintivo.

fig 1 novembro













Do ponto de vista das condições sociais e escolares, os descendentes são também, internamente, um grupo bastante diversificado. Dos três subgrupos que evidenciámos, dois deles apresentam sinais particularmente contrastantes: os alunos com origem nos PALOP, e os alunos de origens mistas. Os segundos estão, na generalidade, próximos ou até melhor posicionados em termos sociais do que os pares autóctones - agregados familiares mais reduzidos, mães e pais mais escolarizados, maioritariamente em situação de actividade, colocados nas posições mais elevadas da hierarquia de profissões e classes sociais. Uma selecção de indicadores de caraterização social e escolar são expostos no quadro 2.



fig 2 novembro












As trajetórias e experiências escolares especificamente observadas nesta investigação mostraram que os alunos descendentes de imigrantes apresentam, no 9º ano de escolaridade, trajetórias mais acentuadas pelas reprovações (em ocorrência e frequência) do que os seus pares autóctones. As razões de reprovação incluem, muito embora não se limitem, às questões de integração num sistema de ensino diferente. As classificações médias são, na sua generalidade, mais baixas, sobretudo nas disciplinas científicas. É nas classificações extremas que se joga a desvantagem dos filhos de imigrantes.

Os alunos de "origens mistas" têm, porém, experiências escolares próximas, ou mais positivas, do que os pares autóctones. Reprovam menos (e atribuem a reprovação sobretudo a problemas na docência e na avaliação), e têm classificações escolares semelhantes ou mais elevadas, atitudes similares perante as normas escolares, bem como padrões de satisfação e apreciação contíguos.

Orientações de futuro entre os descendentes de imigrantes

Um dos domínios em que os processos de integração dos filhos de imigrantes podem ser analisados é o relativo às modalidades de projecção no futuro. As orientações prefigurativas, escolares e profissionais – aspirações, expetativas, projetos de futuro – são formas de adaptação, críticas na compreensão das identidades, dos valores, tal como dos regimes institucionais e das estruturas de oportunidades. A imaginação de sentido projetivo precede, possibilita ou constrange, a ação. Simultaneamente, reflete contextos sociais, arranjos institucionais, mas também percursos de individuação e de mobilidade social intergeracional.

As escolhas escolares e profissionais examinadas entre os alunos inquiridos confirmaram em grande medida as tendências encontradas na literatura internacional. Desde logo a existência de elevadas aspirações na generalidade dos jovens – dado consolidado na literatura sociológica, e atribuído às mudanças na estrutura social e na estrutura laboral, ao aumento das qualificações de acesso ao mercado de trabalho, à melhoria das condições de vida, à expansão do sistema escolar, ou ainda ao prolongamento da condição jovem.

As aspirações escolares dos inquiridos, representadas na figura 1, revelam que os jovens descendentes de imigrantes têm ambições tão elevadas quanto os seus pares autóctones: a estrutura de distribuição das aspirações escolares é semelhante. Todos são ambiciosos, os jovens de origem mista são-no ainda mais, e os restantes descendentes de imigrantes são-no ligeiramente menos. Os primeiros superam todos os pares nas aspirações mais elevadas, e têm uma indefinição mais baixa.






















Uma das modalidades possíveis de análise das aspirações profissionais é a sua organização numa escala de prestígio social e qualificação em três categorias: prestígio alto, prestígio moderado e prestígio baixo, a que se adicionou ainda indefinição, agrupando as respostas "não sabe/não responde" (figura 2).1 A primeira constatação será o seu nível elevado: cerca de 70% ou mais dos jovens aspira a um lugar muito qualificado no mercado de trabalho, de resto em consonância com as tendências assinaladas nos estudos neste domínio a partir dos anos 90. O grupo profissional mais escolhido é o 2 – a maioria dos jovens escolhe profissões no âmbito dos especialistas das Profissões Intelectuais e Científicas, mas também as profissões técnicas de nível intermédio.

A estrutura de distribuição das aspirações é semelhante entre alunos autóctones e descendentes de imigrantes. Todos são ambiciosos, mas os jovens de origem mista são-no ainda mais. A escolha de profissões de nível moderado ou baixo é muito residual – cerca de 10% dos alunos inquiridos escolhem profissões na categoria de prestígio moderado, e menos de 2% na categoria de prestígio baixo.




















O exercício de análise das orientações de futuro deu ainda origem à construção de uma tipologia de orientações de futuro que sintetizou e integrou a coerência entre aspirações escolares e profissionais, o grau de definição das mesmas, bem como do seu grau de planificação, através da definição de curto prazo (modalidade de ensino secundário), e a relação de dinamismo face ao universo profissional dos progenitores. A análise tipológica possibilitou a compreensão da diversidade de modos de projecção no futuro (figura 3).

Do lado das projecções mais estruturadas, articuladas e apoiadas na família e na escola, encontramos os projetos ascendente, coerente e planificado e sucessor, coerente e planificado. O primeiro é desenvolvido por descendentes e autóctones de forma similar, sendo que o segundo é mais saliente nos autóctones. Em ambos os projetos, os jovens com origem mista assumem uma posição de destaque, confirmando a posição favorável evidenciada.

A meio caminho, numa posição intermédia mas não inteiramente estruturada institucionalmente, encontramos os alunos com projetos ascendentes, coerentes e não planificados, onde os descendentes de imigrantes, nomeadamente com origem nos PALOP, se destacam. Do lado mais pós-moderno dos processos de transição, numa situação de exploração aberta, mas apoiada, dos futuros possíveis, encontram-se os perfis sucessor, coerente e não planificado e difuso em situação de vantagem. São configurações de adiamento, despadronizadas, que abrangem sobretudo alunos autóctones, onde os descendentes de imigrantes estão em menor proporção.

No extremo oposto, aquele em que as condições sociais desiguais assinalam um risco acrescido, e em que a indefinição se confunde com a desorientação, estão os perfis ascendente difuso e difuso em situação de desvantagem. No primeiro a capacidade de imaginar não é acompanhada da capacidade de planear, ou navegar de modo mais concreto o sistema educativo e laboral. No segundo, o próprio exercício de imaginação é bloqueado, não se desenvolvendo em continuidade, nem em descontinuidade, face às condições sociais e escolares de base. Os alunos com origem nos PALOP e de outras origens encontram-se mais profusamente nestes perfis, e sobretudo no último. No entanto, eles também incluem jovens autóctones.

fig 4 novembro




















Notas finais

A partir dos indicadores analisados, há sinais da existência de dificuldades específicas, ou de vantagem decorrente da origem imigrante? O primeiro sinal será o de heterogeneidade do grupo de descendentes de imigrantes, ou seja, de que não poderemos falar no plural. Confirmámos através das análises precedentes que os jovens descendentes de imigrantes de origem mista, por exemplo, se aproximam dos alunos autóctones, e inclusivamente reúnem ou experienciam condições mais favoráveis do que eles. São portadores de identidades híbridas e competências biculturais que misturam criativamente elementos culturais, desencadeando processos de projecção no futuro estruturados, coerentes e com amplos horizontes de possibilidades. Os padrões identificados nestes alunos evidenciam integração escolar, contextos familiares facilitadores dos processos de escolarização, quadros de interação privilegiados e forte agência individual. Eles personificam as vantagens de condições sociais mais favoráveis, mas também de "quadros de referência duais", facilitadores de processos de acomodação e negociação. Reúnem legados africanos, europeus e outros na formação de núcleos familiares transnacionais com um progenitor português. Socializados em ambos os referentes culturais – portugueses e estrangeiros, tendem a revelar experiências e resultados escolares mais favoráveis do que os obtidos pelos restantes descendentes de imigrantes, mais próximos dos pares autóctones, distantes face aos padrões mais directamente relacionados com as dinâmicas migratórias, como com as estatutárias e linguísticas. Esta distância parece desaconselhar o seu tratamento conjunto e indiferenciado na categoria "descendentes de imigrantes". A grande diversidade interna deste segmento compromete a validade de uma análise exclusivamente centrada no indicador homogéneo "ascendência estrangeira", e os filhos de famílias mistas que incluem um progenitor português não devem, pela sua particularidade face aos restantes descendentes e proximidade relativamente aos seus pares autóctones, ser considerados no mesmo "todo".

É entre os jovens de origens mistas que vamos encontrar sinais claros da "vantagem das segundas gerações" assinalada por Kasinitz e outros (2008). Os argumentos diferencialistas parecem esbater-se nos seus relatos, e as identidades, aditivas, sincréticas e ambivalentes, revelam "eus" de grande elasticidade. Trata-se, de facto, de um grupo protagonista por excelência das dinâmicas contemporâneas de individualização, que nos leva a questionar as lentes da "desvantagem" na observação dos descendentes de imigrantes.



Bibliografia

De Rudder, Véronique (1998), "Identité, origine et étiquetage", Journal des Anthropologues, 72-73, pp. 1-7.

GEPE (2011), Perfil do Aluno 2009/2010, Lisboa, Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação.

Kasinitz, Philip, John H. Mollenkopf, Mary C. Waters e Jennifer Holdaway (2008), Inheriting the City: The Children of Immigrants Come of Age, Cambridge, Massachusetts e Londres, Russell Sage Foundation and Harvard University Press.

Machado, Fernando Luís (1994), "Luso-africanos em Portugal - nas margens da etnicidade", Sociologia, Problemas e Práticas, 16, pp. 111-134.

Machado, Fernando Luís (coord.), David Nóvoas, Susana Fernandes e Tiago Pereira (2011), Estudantes à Entrada do Secundário – 2010/2011, Lisboa, Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação (GEPE).

Machado, Fernando Luís e Ana Raquel Matias (2006), "Descendentes de Imigrantes nas Sociedades de Acolhimento: Linhas de Identificação Sociológica", CIES e-Working Paper , nº13/2006, Lisboa, CIES-IUL.

Mateus, Sandra (2013), "'As classificações classificam os classificadores?' Notas sobre os processos de categorização na construção de conhecimento sobre os descendentes de imigrantes", CIES e-Working Paper, Nº 144/2013, Lisboa, CIES-IUL.

Mateus, Sandra (2014), Futuros convergentes? Processos, dinâmicas e perfis de construção das orientações escolares e profissionais de jovens descendentes de imigrantes em Portugal, Tese de Doutoramento, Lisboa, Instituto Universitário de Lisboa.

OECD (2012), Untapped Skills: Realising the Potential of Immigrant Students, OECD Publishing.

Portes, Alejandro e Min Zhou (1993), "The new second generation: segmented assimilation and its variants", The Annals of the American Academy of Political and Social Science, 530, pp. 74-96.

Portes, Alejandro e Rubén G. Rumbaut (2001), Legacies: The Story of the Immigrant Second Generation, Berkeley, CA, University of California Press and Russell Sage Foundation.

Seabra, Teresa, Sandra Mateus, Elisabete Rodrigues e Magda Nico (2011), Trajectos e Projectos de Jovens Descendentes de Imigrantes à Saída da Escolaridade Básica, Lisboa, Alto-Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural, IP.

Waters, Mary C., Van C. Tran, Philip Kasinitz e John H. Mollenkopf (2010), "Segmented assimilation revisited: types of acculturation and socioeconomic mobility in young adulthood", Ethnic and Racial Studies, 33 (7), pp. 1168-1193.




Notas:

1 Esta modalidade obedeceu a duas etapas prévias: a recodificação das profissões enunciadas pelos inquiridos segundo a Classificação Nacional das Profissões (versão de 1994), e a sua síntese numa escala de prestígio, em que se agruparam os grupos 1 a 3 na categoria "prestígio alto"; 4 a 6 na categoria "prestígio moderado"; e 7 a 9 na categoria de "prestígio baixo".



















  • Faixa publicitária
  • Faixa publicitária
  • Faixa publicitária

Contacte-nos