OLHARES SOBRE JOVENS

Outubro 2011 - Educação e Formação

 



Educação e Formação


A Juventude: Um Produto da Escola?

    A juventude, como condição social associada a um tempo específico de vida e a um estilo de vida identificável, emerge e afirma-se fortemente ancorada ao prolongamento da escolaridade nas sociedades contemporâneas. É a obrigatoriedade escolar, sucessivamente alongada ao longo do século XX e fixada em idades avançadas (actualmente entre os 16 e os 18 anos em todo o espaço europeu), que gera as condições para um massivo adiamento da entrada dos mais novos na vida activa e para a plena assunção da condição de estudante, com as prerrogativas que lhe estão associadas, como marcador identitário central da experiência juvenil.

    Ora, como há muito as estatísticas o comprovam, o processo de escolarização da população portuguesa decorre, durante décadas, a um ritmo extremamente lento, se comparado com o que sucede no restante espaço europeu. É já na década de 80 do século XX que a massificação escolar pós-infância verdadeiramente arranca, em parte decorrente da extensão para 9 anos de escolaridade da obrigatoriedade de frequência do sistema de ensino, mas também em grande parte pela existência de condições económicas mais favoráveis no país, propícias a uma “conversão” da generalidade da população (e das famílias, em particular) aos benefícios de uma escolaridade prolongada. Daí poder afirmar-se que a emergência da juventude como condição social é um fenómeno relativamente recente em Portugal.

A expressão da generalização da condição de estudante à esmagadora maioria dos jovens portugueses até aos 17 anos é bem visível no gráfico seguinte. Em vinte anos, aquilo que representava uma experiência só acessível a uma minoria privilegiada (continuar a estudar, manter-se “entre si”, convivendo intensa e quotidianamente com o grupo de pares na escola ou fora dela, ao abrigo das responsabilidades associadas a um desempenho profissional quantas vezes penoso), passa a fazer parte da experiência de muitos. As taxas de escolarização revelam isso mesmo: em 2009, de entre a totalidade dos jovens com 17 anos, 88 em 100 é estudante. O que, evidentemente, não deixa de ter efeitos sobre as rotinas escolares: efeitos que se prendem com a mudança no perfil social dos públicos escolares, mas também com os desafios decorrentes da chegada em força do mundo juvenil à escola e da relevância assumida pelo grupo de pares como nova referência socializadora para os mais novos.

























Entre Jovens: Escolarização e Diferenciação

Não obstante mais jovens partilharem entre si a condição de estudante, tal não significa necessariamente a partilha de uma idêntica experiência escolar. De facto, se a escola se assume hoje como espaço para onde convergem massivamente os mais novos e, nessa medida, se afirma como lugar central de fabricação de indivíduos, é verdade que a escolaridade se revela também como processo diferenciador, que forja divisões (mais ou menos significativas) entre os jovens. Desde logo, pelos critérios que conduzem à frequência de um dado estabelecimento de ensino (e não de outro). Depois, pelo próprio decurso da escolaridade e pelas experiências diferenciadas (de escola para escola, de turma para turma) que ela propicia. Por último, pelo julgamento das capacidades que a escola exercita quotidianamente junto dos alunos, hierarquizando-os e, com isso, abrindo ou fechando horizontes de possibilidades a cada um.

Um dos marcadores de diferenciação porventura mais exemplificativos da acção da escola é a distinção de género. O fenómeno da dupla vantagem escolar das raparigas, ou seja, o facto de as raparigas terem, em média, melhores desempenhos escolares e estudarem até mais tarde, que hoje se observa no sistema de ensino português como de resto em outros países europeus, é fabricado em larga medida na escola embora as suas causas extravasem o universo escolar. Tal vantagem começa a construir-se no início da adolescência, consolida-se e torna-se crescentemente visível à medida que se avança para os níveis mais elevados do sistema, como fica patente no quadro seguinte:


















Por sua vez o desempenho escolar, associado ao conjunto de recursos mobilizáveis e às oportunidades disponibilizadas vai ainda justificar, no decurso da escolaridade, a orientação de cada aluno para áreas e cursos com perfis bastante distintos, num sucessivo desdobramento de trajectórias com sentidos não equiparáveis. É agora no interior do sistema de ensino – e já não através da sua exclusão - que se opera o processo de seriação dos pares.


Jovens e menos jovens em Portugal: Um Fosso Cultural Geracional?


No que é já amplamente conhecido, Portugal destaca-se de entre o conjunto dos países europeus por ser aquele que revela os piores níveis de escolaridade atingidos pela sua população – dado que, aliás, interpela as tão difundidas teses do suposto “excesso” de diplomados no país… Com efeito, como se observa no gráfico seguinte, mesmo os jovens portugueses demonstram níveis de estudos bem mais modestos que a generalidade dos seus pares europeus, o que patenteia o enorme trabalho ainda a fazer neste domínio.

Não obstante este retrato confrangedor, um dado sobressai com particular nitidez:  Portugal é também o país europeu onde o avanço geracional em termos escolares foi maior. Em 2007, a percentagem dos jovens com idades compreendidas entre os 25-29 anos que completou no mínimo o 9º ano de escolaridade é três vezes maior daquela ostentada pelo grupo etário (55-59 anos) em que se situa maioritariamente a geração dos seus pais.






















Para além de revelar um inequívoco investimento educativo junto dos mais novos consagrado, quer pelos poderes públicos, quer pelas próprias famílias, esta distância escolar significativa não deixa também de colocar a questão da existência de um fosso cultural acentuado entre gerações, no país, muito mais intenso que no restante espaço europeu. Até que ponto esse contraste geracional agudo e as eventuais dissonâncias comunicacionais daí decorrentes não serão um estímulo para o retorno aos estudos por parte dos mais velhos, é uma hipótese que alguns estudos recentes parecem em parte confirmar…

Maria Manuel Vieira (ICS-UL)


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