Seminários Jovens no Terreno - 10 de Dezembro 2013

 

Entre Olhares: a fotografia participativa enquanto ferramenta de investigação social com grupos juvenis

Por Daniel Meirinho (CESNOVA-UNL)


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Como os discursos e histórias de jovens em contextos de vulnerabilidade social, contadas através de ferramentas comunicacionais visuais (fotografias) convidam-nos a perceber o seu mundo? Esta é a questão central do projeto de investigação-ação participativa Olhares em Foco que trabalhou com jovens moradores de três diferentes comunidades – uma urbana e uma rural no Brasil, e um bairro social multiétnico, em Portugal – como agentes "experts" das suas próprias vidas (McIntyre, 2000).

Este seminário destaca como a imagem fotográfica pode ser uma ferramenta metodológica de investigação e análise com jovens provenientes de contextos em exclusão social. A proposta é apresentar os resultados de uma investigação-ação participativa realizada entre 2009 e 2013 em que a fotografia participativa e a visualidade possibilitaram a expressão, reflexão identitária e resgate de autoestima de jovens em situação de exclusão social no Brasil e em Portugal. Através de uma plataforma de intervenção social, procuramos discutir as produções visuais dos envolvidos no Projeto Olhares em Foco de si mesmos, dos seus grupos de pares, das suas famílias e das suas comunidades. Através deste estudo de caso as representações visuais transformaram-se num suporte para o desenvolvimento de um pensamento crítico (Freire, 1967; 1970) que levou a uma compreensão das perspetivas, necessidades e problemáticas pessoais e coletivas ilustradas nas fotografias e avaliadas pelo processo dialógico.

A base teórica foi montada a partir da metodologia Photovoice (Wang e Burris, 1997) que propõe a inserir no processo investigativo atividades de base comunitária que promovem tais competências visuais para identificar, representar e reforçar às necessidades de um grupo social, através de representações fotográficas. Para os participantes, os benefícios do uso de metodologias visuais colaborativas incluem a validação do repertório de vida e conhecimento local (Spielman, 2001), novas perspetivas sobre de si próprios (McIntyre, 2003), aumento da autoestima (Edwards, 2001), reforço a equidade de género, reconhecimento e reflexão enquanto grupo e defesa coletiva direcionada para a mudança social (Wang e Redwood-Jones, 2001).

A imagem fotográfica foi utilizada como um estímulo para os debates sobre seus interesses e todo um sistema de proteção e direitos, além de instrumento para reflexões acerca das suas raízes culturais e identitárias a partir de parâmetros de relações sociais estruturadas entre eles (cidadãos), a família, seus grupos de pares e a comunidade. Câmaras fotográficas digitais estiveram na posse destes jovens com a finalidade de retratarem e representarem visualmente a si próprios, a sua família, amigos e os contextos sociais nos quais se encontram inseridos. Cada grupo realizou uma exposição fotográfica em espaços comunitários eleitos de forma participativa.

Participaram no estudo 56 jovens entre 11 e 21 anos, dos géneros masculinos e femininos, inseridos em organizações de cariz social e de desenvolvimento comunitário em três contextos sociais distintos: numa comunidade rural quilombola chamada Pega (Brasil), num contexto urbano periférico intitulado Vila Santana do Cafezal (Brasil) e num bairro social de realojamento identificado por Quinta do Mocho (Portugal). O trabalho de campo foi realizado entre Março de 2011 e Fevereiro de 2012, totalizando 5499 fotografias produzidas pelos participantes, nas 146 horas de oficinas e três exposições fotográficas comunitárias.

Através dos quatro perfis identitários (o eu, os pares, a família e o meio) propostos para análise refletimos sobre os interesses e preocupações representeados nas fotografias captadas pelos jovens participantes. A imagem fotográfica demonstrou ser uma ferramenta que amplia as formas de expressão dos jovens ao mesmo tempo que um recurso criativo que evidencia a existência de padrões e escolhas semelhantes entre os diferentes jovens que refletem os seus perfis identitários. As representações visuais nos forneceram uma série de informações detalhadas acerca das suas necessidades, problemáticas e ambientes de interação que possibilitaram amplas perceções sobre os significados criados pelos jovens participantes sobre si mesmos, seus grupos de pares, suas famílias e seus ambientes sociais.

As principais reflexões retiradas deste processo participativo contribuíram para a compreensão crítica das problemáticas, necessidades e recursos comunitários que afetam diretamente nos processos de mudança pessoal e coletiva dos jovens envolvidos. A conjugação deste material nos possibilitou avaliar os desafios e aplicabilidade de uma investigação-ação participativa com jovens. As suas perspetivas nos fazem refletir acerca do potencial transformador e interventivo que as investigações sociais possam ofertar às investigações sociais e aos indivíduos envolvidos.

olhares em foco





















Daniel Meirinho é mestre em Comunicação e Artes e finalizou em 2013 o doutoramento em Comunicação e Ciências Sociais pela Universidade Nova de Lisboa. É atualmente investigador associado do Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa (CESNOVA) e colaborador do Centro de Investigação Media e Jornalismo (CIMJ). Seu interesse de investigação passa pela análise da imagem fotográfica enquanto ferramenta para o engajamento social de jovens em contextos de vulnerabilidade e risco.

Realizou trabalhos com diversas organizações não-governamentais no Brasil e em Portugal. Entre elas Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, Fundação da Criança e do Adolescente (FUNDAC), Unicef, Conselho Nacional da Criança e do Adolescente (CONANDA) e Plan Brasil. Em Portugal trabalhou para a Amnistia Internacional, Associação CAIS e com o Programa Escolhas.

Idealizou o Projeto Olhares em Foco e atualmente desenvolve consultoria e acompanha a proposta desenvolvida pelo ChildFund Brasil, e em Portugal com o Programa Escolhas.

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