Seminários Mundos Juvenis - 18 de Abril

 

O mesmo jogo, os mesmos sonhos e experiências? A migração internacional de mulheres futebolistas em diversas perspectivas comparativas.


Nina Clara Tiesler, ICS-UL



A investigação sobre a migração feminina começou recentemente a concentrar-se nas mulheres que contribuem para o sustento das famílias que deixaram nos seus países de origem (Isaksen 2008) e nas jovens mulheres solteiras que migram sozinhas por razões económicas ou profissionais (Wall et al. 2009, Hellermann 2007). Esta última categoria abrange o crescente número de mulheres futebolistas migrantes, as quais começaram a ser alvo de atenção pública na Europa devido à crescente popularidade deste desporto. De facto, desde 2000, o número de jogadoras registadas mais do que duplicou, ultrapassando actualmente os 30 milhões, o que faz do futebol o desporto feminino em mais rápido crescimento a nível mundial (Harris 2007, FIFA 2007). Nos principais clubes de países recetores da Europa, a percentagem de jogadoras estrangeiras pode atingir entre os 19% e 50%.

    Inaugurar a investigação comparativa nesta área proporciona uma oportunidade de explorar este processo migratório incipiente. A migração internacional de mulheres futebolistas constitui um campo inteiramente novo e inexplorado, podendo ser abordado nos contextos da migração feminina, da migração jovem (Tiesler/Cairns 2007), e por oposição aos homens futebolistas (Tiesler/Coelho 2008, Agergaard/Soerensen 2009, Rial 2009). O nosso trabalho enriquecerá as respectivas áreas de estudo mediante a lógica em desenvolvimento deste processo. Compreender as experiências e projectos migratórios destas atletas poderá também aprofundar conceitos e tipologias comuns dos Estudos da Migração.

    Estas jovens mulheres migram sozinhas, frequentemente para cidades mais pequenas que não são o destino preferencial de outros (etnicamente específicos) migrantes; as mulheres recrutadas como atletas de elite, à semelhança de outros migrantes de elite, são consideradas altamente móveis. Como fez notar Rial (2008) no seu premiado artigo sobre futebolistas brasileiros, esta migração é circulativa e os migrantes ingressam em clubes mais do que em países. Ao contrário dos migrantes de elite não desportistas, lidamos aqui com uma profissionalização prematura e, em oposição aos jovens não desportistas que migram por razões educacionais e adquirem um capital académico duradouro, estas mulheres acumulam um capital físico de carácter temporário. Apesar da melhoria das condições, as perspectivas financeiras nas ligas europeias não são excepcionais. Ao contrário dos homens futebolistas migrantes, que recebem salários elevados, muitas destas mulheres recebem apenas o salário mínimo nacional, sem beneficiarem de direitos laborais ou de um adequado plano de saúde. Como na migração de homens futebolistas, “mudar-se com a bola” (Lanfranchi/Taylor 2001) para um país estrangeiro significa deixar a família e enfrentar um difícil processo de adaptação profissional e social. Em muitos casos, significa também uma espécie de isolamento social, devido à barreira da língua e à escassez de compatriotas na mesma equipa. Mas, em comparação com outros migrantes e com os jogadores masculinos, o convívio social das futebolistas contratadas é ainda mais limitado, já que as suas colegas de equipa (autóctones) estão envolvidas noutras actividades profissionais e educativas, enquanto que a ocupação delas se restringe ao futebol.

    Não obstante, este fluxo internacional de mulheres futebolistas tem vindo a aumentar substancialmente nos últimos anos, ultrapassando os limites geográficos tradicionais e assumindo características globalizadas. Consequentemente, as principais questões a que pretendemos dar resposta são:

Por que razão as jovens mulheres deixam os seus países para jogarem no estrangeiro, e o que impulsiona estes primeiros processos migratórios? Até que ponto os motivos, experiências e resultados dos projetos de migração diferem entre os países em vias de desenvolvimento e os países nucleares do FF? As mulheres futebolistas migrantes obtêm um capital social duradouro? As abordagens homofóbicas e racistas influenciam as estratégias de recrutamento dos clubes? Quem apoia estas mulheres e os seus projetos de migração?

Essa conferência irá introduzir os casos de jogadoras portuguesas, brasileiras e de países africanos num contexto comparativo mais amplo de fluxos internacionais. A análise baseia-se em dados quantitativos (fluxos) e qualitativos (entrevistas com jogadoras, observação participante, fontes secundárias dos média e da FIFA).


O estudo está em curso desde Dezembro de 2009. É uma parte integral do projeto “Diasbola: Futebol e Emigração Portuguesa” (www.diasbola.com) e está integrado nas atividades da rede de investigação Football Migration Network (http://www.diasbola.com/uk/foomi-members.html). Desde Janeiro de 2012 está financiado pelo João Havelange Research Grant da FIFA.


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