Seminários Mundos Juvenis - 12 de Março 2012

 

Os filhos da Amazônia: o cotidiano dos jovens do Lago da Hidroelétrica de Tucuruí – Brasil



Edilene Santos Portilho (Universidade Federal Fluminense)


A construção das novas hidroelétricas, a manutenção das estruturas do latifúndio e a incompatibilidade com a ordem ambiental vigente tem produzido no espaço da Amazônia brasileira a histórica movimentação das populações locais (ribeirinhos, quilombolas, indígenas). Isto significa que aumentam as dificuldades da reprodução da vida e da cultura ribeirinha à medida que ocorre a perda crescente do território. A Hidroelétrica de Tucuruí, logo na década de 1980, início da obra, tomou por meio das inundações, as terras de mais de 30 mil pessoas. As inundações causaram a supressão do espaço e dos recursos naturais, isto intensificou a movimentação do povo ribeirinho para as áreas de influência do Lago formado pela Hidrelétrica. O Lago, há três décadas, possui cerca de 1.800 ilhas e uma área inundada de aproximada de 275 mil km². Neste espaço predominam as terras denominadas de áreas de preservação ambiental (que não permitem o acesso de populações) e de áreas particulares, grandes extensões de domínio dos empresários rurais. Considerou-se este contexto para desenvolver a pesquisa com os jovens entre 18 a 32 anos, ribeirinhos residentes no Lago da Hidrelétrica de Tucuruí. Estão sendo tecidas reflexões ao compreender por meio da análise dos modos de vida, como os jovens articulam seus espaços de existência e como elaboram os sentidos de sua permanência no lugar, inspirado no conceito das "ancoragens". Trata-se de um conceito que explica as "escolhas" do indivíduo que o faz permanecer em um espaço a partir da construção de uma identidade, a "invenção" de uma origem que dá sentido à sua vida. No caso dos jovens do Lago, poderá ser considerada o uso da poita. A poita é uma tecnologia desenvolvida pelos ribeirinhos para auxiliar a pesca, e consiste de uma pedra amarrada à um fio, que tem a mesma função da âncora. A pesquisa de campo foi desenvolvida por meio de observação participante no cotidiano das famílias com a realização de visitas aos domicílios, de acompanhamento dos jovens nos momentos da diversão (nos campos de futebol) e do trabalho. Foram desenvolvidas entrevistas e conversas individuais e em grupo na perspectiva reconhecer as relações de gênero e geracional. Pode ser um paradoxo pensar que actualmente os jovens reinventam o seu cotidiano em função do acesso à água e à luz. Em suas habitações os jovens não usufruem nem da energia eléctrica produzida na barragem nem de água encanada. Nos períodos da extrema seca apontam a vontade de migrar para outras áreas a fim de poderem viver com menor sacrifício. A migração modelada pelo movimento do ir e vir – ir e vir caracterizou o processo histórico que a população ribeirinha desenvolveu na procura de condições para a sobrevivência de seu modo de vida. Mas, atualmente, a mudança nesse padrão de movimento demográfico é observada pelos dilemas enfrentados por aqueles que decidem pela permanência. O jovem ribeirinho que escolhe a permanência, ou seja, que baixa a poita no Lago, desenvolve uma criatividade cotidiana que pode ser observada pela invenção de novos saberes e técnicas. Essa invenção na maioria dos casos é desenvolvida nos contextos da herança dos modos de vida das gerações anteriores e dos conflitos com a ordem agrária e ambiental. Além disto, os jovens renunciam à escolarização, pois isto implicaria sua saída e possível ruptura com suas origens.


Edilene Santos Portilho, é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense e está a realizar um estágio no ICS, sob a orientação do Professor José Machado Pais. Tem título de mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Agrícola (2008) e licenciada em Ciências Agrícolas na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Seu trabalho consiste de apoio aos grupos étnicos, do meio rural e de instituições em temáticas que envolvem as juventudes nos contextos das ruralidades, dos grandes projectos, do educacional e do ambiental na Amazónia.


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