OLHARES SOBRE JOVENS

Setembro 2011 - Jovens e Vida Familiar

 

Jovens e Vida Familiar

A entrada na vida adulta é caracterizada por um número de transições-chave, entre as quais a saída da casa dos pais e a constituição de uma vida familiar autónoma constituem momentos fundamentais e muitas vezes desafiadores para os jovens. Ter uma casa e viver independente, entrar na vida a dois, ter filhos continuam a ser marcadores associados ao estatuto de “ser adulto e autónomo”, muito embora nem todos os jovens vivam estas transições da mesma forma ou passem sequer por elas. A construção de uma vida independente, sendo ainda aí central a formação de uma família, é muitas vezes protelada para depois dos vinte ou mesmo dos trinta anos, revelando o adiamento progressivo da indepedência residencial e das transições a ela associadas.

 Com quem e como vivem os jovens?

Apesar de estas tendências, visíveis no prolongamento da fase juvenil da vida, serem centrais nas sociedades contemporâneas, o cenário europeu é, ainda assim, muito diversificado. Como se constata através do quadro seguinte, os jovens organizam e vivem a sua vida familiar de formas muito diferentes, notando-se, ainda hoje, o contraste marcado entre os países da Europa do norte e os países da Europa do sul. Enquanto nos primeiros, os homens e as mulheres saem de casa dos pais muito cedo (pouco depois dos 20 anos) e tendem frequentemente a viver sozinhos, nos segundos, a estadia em casa dos pais tende a prolongar-se até quase aos 30 anos, sendo tambem muito pequena a proporção daqueles que vivem a sós entre os 18 e os 28 anos. As diferenças nas idades com que se entra na vida conjugal ou se tem um filho não são, porém, tão evidentes.

Contudo, em traços gerais, a forma como se vive a década dos vinte anos é muitissimo diferente, revelando sobretudo a oposição entre a autonomia precoce dos jovens norte-europeus e o prolongamento da dependência residencial entre os jovens portugueses e de outros países sul-europeus, tendência igualmente visível em vários países do leste da Europa. A comparação europeia revela assim, claramente, dois modelos contrastantes de autonomização juvenil.

Além disso, no caso português, a quase justaposição entre a idade com que se sai de casa dos pais e a idade em que se inicia a vida em casal aponta para um modelo de independência residencial ainda associado à conjugalidade e formação de uma família. Evidentemente, a falta de apoios públicos no acesso à autonomia residencial, o menor desenvolvimento e riqueza económica do país e a precariedade laboral persistente entre os jovens constituiem o pano de fundo desta esta realidade, explicando a maior dependência da população mais nova face aos pais. A par da eventual influência de um maior familialismo que ainda persiste em termos normativos, a falta de recursos financeiros aparece como principal constrangimento para a não a permanência na casa dos pais. Afinal, segundo dados de 2007 (Eurostat), cerca de dois terços dos jovens portugueses apontava a falta de recursos financeiros próprios como principal motivo para a não saída da casa paterna.



































A formação do casal e da família: adiamento e informalização

A maior dependência residencial dos jovens portugueses, por comparação com o modelo fortemente individualista do norte da Europa, não anula, porém, que grandes mudanças se tenham operado nos tempos e nas formas de entrada na vida conjugal e parental. Em alinhamento com tendências comuns a grande parte dos países europeus, hoje casa-se mais tarde, vive-se junto em vez de casar e adia-se igualmente a chegada de um primeiro filho.


















É de notar, desde logo, que, ao longo do tempo e analisando em particular as últimas três décadas, a idade média ao primeiro casamento sofreu um aumento muitíssimo significativo, quer no caso dos homens, quer no das mulheres. Embora se verifiquem diferenças de género consistentes ao longo do tempo, o adiamento do casamento é inegável. Actualmente, os homens tendem a casar já depois dos 30 anos e as mulheres já perto dos 29 anos. A mesma tendência aplica-se à transição para a parentalidade: as mulheres têm, hoje, o primeiro filho perto dos 29 anos, em média cinco anos mais tarde do que em 1980.




















Como mostra o gráfico anterior, verifica-se, ao longo das últimas décadas, uma tendência para a diminuição do número bebés nascidos de mães entre os 15 e os 29 anos. Enquanto em 1985, cerca de 75% dos nascimentos ocorriam neste grupo etário, em 2009 menos de metade das mães (44,9%) têm entre 15 e 29 anos. No entanto, destas, cerca de metade (49,4%)  teve um filho fora do casamento formal. Entre 2000 e 2009, a percentagem de mulheres jovens cujos filhos nascem fora do casamento – na sua maioria, numa situação de coabitação conjugal – duplicou, evolução que demonstra bem as transformações nas formas de constituir o casal e a família. O peso do casamento, outrora condição fundamental para a aceitação social da maternidade e da sexualidade,  foi dando lugar a uma nova visão relacionalista e informal da conjugalidade.

É sem dúvida, entre as camadas mais jovens da população que estas mudanças, muito aceleradas nos últimos dez anos, possuem mais notoriedade, apontando para novas formas, mais tardias e desinstitucionalizadas, de iniciar e viver a vida familiar. Não obstante a predominância de um modelo de prolongamento da dependência residencial dos jovens, típico dos países do sul da Europa em contraste com a emancipação muito mais precoce e individualizada dos jovens do norte e centro europeus, as novas formas de entrar na conjugalidade – ainda uma condição de grande importância para a conquista da dita independência face à casa paterna – e na parentalidade revelam tendências claras e irrevogáveis de transformação nos modelos familiares.


Sofia Aboim (ICS-UL)

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