OLHARES SOBRE JOVENS

Setembro 2013 - Crianças, consumo e poupança: uma investigação em duas escolas primárias

 

Raquel Barbosa Ribeiro (ISCSP-U.Lisboa)



Resumo

Este artigo resume os resultados de uma investigação sociológica sobre consumo e poupança das crianças, coordenada por Raquel Barbosa Ribeiro, do ISCSP-UTL, em parceria com António Gabriel, do Agrupamento de Escolas de Nuno Gonçalves em Lisboa. O estudo teve como objectivo principal investigar as representações e práticas financeiras, a gestão do dinheiro e a poupança de crianças dos 8 aos 12 anos. A pesquisa foi quali-quantitativa e incluiu 245 crianças do 3º e do 4º ano de escolaridade, os seus encarregados de educação e professores. Foram comparadas duas escolas primárias muito diferentes: uma escola pública frequentada por alunos de estrato social médio baixo, em Lisboa (que será designada por “Lisboa”) e uma escola privada para filhos de dirigentes e quadros superiores, no Estoril (doravante referida como “Estoril”). A recolha de dados decorreu entre Fevereiro e Julho de 2011.


Introdução

As crianças têm sido progressivamente consideradas como actores activos e influentes no processo de consumo (Pugh, 2011; Schor, 2004) e a sua relação com o dinheiro, a família, os pares e os media tem sido notoriamente exploradas nas últimas décadas (Cook, 2008). Académicos, governantes e organizações examinam as crianças com crescente interesse e preocupação, tentando antever o perfil dos cidadãos consumidores do futuro e prevenir problemas que têm desafiado as sociedades contemporâneas, como a dívida, a alienação ou a poluição. A investigação multidisciplinar tem abarcado tópicos de interesse como a socialização para o consumo e os estágios de evolução cognitiva inspirados em Piaget, a transmissão intergeracional de atitudes e comportamentos parentais às suas crianças, o efeito das estratégias de marketing e publicidade nas crianças, com as suas implicações legais e éticas, a formação do processo de decisão de compra, a influência, a negociação e a manipulação dos seus pais e educadores e as políticas sociais e de defesa do consumidor (John, 1999, Martens et al., 2004). Alguns temas que despertam preocupações políticas e morais são, por exemplo, a discussão sobre se o consumo estandardiza, “comodifica” ou reprime as experiências infantis; se as crianças são instrumentos de interesses capitalistas e se o desejo por bens e serviços caros encaminha as crianças para escolhas de vida perigosas (Zelizer, 2002).

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É reconhecido que as crianças têm sido tratadas como actores sociais menores ou subdesenvolvidos (Ruckenstein, 2010), desempenhando um papel secundário em processos de consumo e poupança e que “as crianças colocam problemas analíticos, ontológicos e epistemológicos à teorização da acção social (…) precisamente porque a sua agência, a sua forma de estar no mundo e as suas fontes de conhecimento estão sob discussão” (Cook, 2008: 229). Um dos maiores paradoxos na análise sociológica das crianças é a sua suposta falta de racionalidade em termos de comportamento e conhecimentos financeiros, impedindo alegadamente a sua participação completa, autónoma e consciente nas decisões de consumo (Ruckenstein, 2010), quando a racionalidade nunca foi um critério para rejeitar os adultos da categoria de consumidores e não pode, por conseguinte, ser usada para excluir as crianças da análise. Alguns autores referem, por outro lado, que as crianças são incapazes de compreender o valor abstracto e simbólico dos bens de consumo, permanecendo presas à sua forma material, o que cria grandes limitações ao estudo das crianças como parte integrante da cultura de consumo (veja-se Pugh, 2011). Pode ser inferido deste panorama que as crianças não parecem ter nem capacidades racionais, nem capacidades simbólicas suficientes para os teóricos! Porém, a investigação tem demonstrado a capacidade das crianças para negociar significados e para usar o consumo como instrumento relacional. Os estudos têm revelado ainda a relação entre a socialização para o consumo, o crédito e a poupança nas crianças e a sua ulterior utilização na idade adulta (Anderson e Nevitte, 2006; Zelizer, 2002; Furnham e Argyle, 1998). A afectação de recursos financeiros depende não só do rendimento disponível, do património e da conjuntura económica, mas também da estrutura moral, da educação recebida, da criação de hábitos ou do modo de encarar a gratificação do consumo, entre outros factores.

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Um traço curioso numa parte substancial dos estudos sobre as crianças e o consumo é a ênfase colocada no autocontrole e na poupança, tópicos praticamente esquecidos pela investigação sociológica contemporânea, aparte as contribuições da teoria da acção racional (Ribeiro, 2012).


Resultados

A maioria das crianças (cerca de 52%) apresenta uma definição de dinheiro em sentido lato, associando-o a moedas, notas, cartões, poupança e conta no banco. As que entendem que ter ou comprar coisas é sinónimo de dinheiro são mais numerosas na escola do Estoril (33%, contra 15% na de Lisboa). Os alunos do 3º ano têm uma noção mais “tangível” do dinheiro (moedas, notas, cartões), enquanto os alunos do 4º ano dão grande importância à sua vertente comercial (ter ou comprar coisas).

A melhor forma de obter dinheiro é ter um emprego, declara a grande maioria dos inquiridos de ambas as escolas (mais de 70%). A principal utilidade do dinheiro é, para os alunos de Lisboa, pagar as contas de água e de electricidade (uma preocupação que ouvem muito aos pais); já os alunos do Estoril referem em primeiro lugar a poupança. A maioria das crianças inquiridas não acredita que se consiga viver sem dinheiro (80%).

Do que percebem nos media, as mensagens de que os ricos são mais felizes (61%), de que quem trabalha muito é recompensado (55%) e de que com dinheiro consegue-se o que se quer (44%) têm algum peso. Às crianças de ambas as escolas, uma pessoa pobre parece ser mais simpática, mais poupada e mais honesta do que uma pessoa rica. As crianças do Estoril têm uma visão mais idealista da pessoa pobre do que as crianças de Lisboa (para quem o dinheiro é mais importante para a felicidade e a conquista de amizades – mas não para a sua própria amizade).

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Mais de 90% das crianças diz receber dinheiro, seja regular ou esporadicamente. As crianças dos Estoril declaram receber valores consideravelmente superiores aos das crianças de Lisboa, sobretudo em ocasiões importantes como o Natal e o aniversário. Os valores mensais são bastante aproximados (€18 em Lisboa e €22 no Estoril). A grande maioria diz poupar o dinheiro que recebe (73% em Lisboa e 90% no Estoril), dando-o aos pais (comportamento mais presente em Lisboa) ou guardando-o no mealheiro (mais característico no Estoril). Canalizar o dinheiro recebido para ajudar a família é muito mais patente em Lisboa (42%); guardar o dinheiro, sem o gastar nem doar, é um hábito mais forte no Estoril (37%). Nenhuma criança diz que se limita a gastar, sem poupar.

A maioria das crianças (mais de 60%) refere que é necessário portar-se bem e/ou ter boas notas para receber dinheiro. É mais comum que os alunos do Estoril digam que não precisam de fazer nada para receber dinheiro. Segundo as respostas dos pais, não há tanta exigência como a que é declarada pelos filhos, especialmente quanto a ter que ajudar nas limpezas ou nas compras.

Cerca de 85% das crianças vai habitualmente às compras. Enquanto os alunos do Estoril vão acompanhados pelos pais e irmãos, os alunos de Lisboa vão também com outros familiares, como avós, tios ou padrinhos. Há uma maior importância da família alargada nos hábitos de compra e gestão financeira das crianças desta escola. Os itens de consumo mais comprados pelas crianças, para si próprias (em resposta espontânea), são brinquedos, jogos, roupa, sapatos, acessórios, comida, bebida e guloseimas. Nota-se diferenças por escolas: brinquedos e jogos são mais referidos pelas crianças da Lisboa, enquanto os livros são mais mencionados pelas crianças dos Estoril. Cerca de 26% das crianças de Lisboa e 20% do Estoril dizem que não costumam comprar nada. Quanto a diferenças por sexos, o hábito de comprar roupa é superior entre as meninas, enquanto a compra de brinquedos e jogos está mais presente nos rapazes.

As actividades mais desenvolvidas pelas crianças no mês que antecedeu a aplicação dos inquéritos foram o visionamento de televisão, a compra de sumos, a ida ao supermercado, a compra de roupa para si e a compra de brinquedos e jogos. Os alunos do Estoril viram mais televisão, comeram mais em restaurantes ou fast-foods e compraram mais livros. Os alunos de Lisboa compraram mais sumos, brinquedos ou jogos, jogaram mais em centros de diversões e compraram mais equipamento para computador. A compra de roupa e de revistas, as idas ao cinema e ao supermercado e as refeições fora são mais declaradas pelas meninas (especialmente nos Estoril). Os rapazes fazem mais menção às idas ao futebol. Numa questão relativa ao custo de determinados bens de consumo, podemos notar que a percepção dos preços e a hierarquia dos custos feita pelas crianças é bastante realista, sobretudo quanto à tecnologia e à roupa.

A importância da poupança parece ser enorme. Praticamente todas as crianças dizem que o dinheiro é importante para poupar e que as suas famílias lhe dizem que poupar é importante. As crianças de Lisboa enfatizam mais a ideia de poupança por negação do gasto; os inquiridos dos Estoril têm mais a noção de que poupar garante dinheiro no futuro ou permite comprar algo mais caro no futuro. A poupança também é um tema recorrente nos anúncios.

São mais de 70% as crianças que dizem ter, pelo menos, mealheiro. Aproximadamente 50% das crianças diz ter conta no banco. Os pais confirmam estas percepções. É no Estoril que a posse de mealheiro, conta no banco ou ambos é mais elevada. A conta no banco, no entender das crianças, serve para guardar (armazenar) o dinheiro, para poupar e para se poder ir buscar dinheiro quando necessário. A maioria das crianças acha que deverá começar a poupar agora e é no Estoril que essa convicção é mais forte (75%, por oposição a 57% em Lisboa). As raparigas são as que se declaram mais empenhadas em começar a poupar agora.

Conclusões

Este artigo pretendeu alargar o espectro de análise e debate a uma população que ainda está a ganhar relevância em sociologia enquanto consumidora digna de nota: a das crianças. Verificou-se que, em linha com outros estudos sobre adultos, as crianças dos estratos socioeconómicos mais baixos parecem mais orientadas para o pensamento concreto e o presente e traduzem, nas suas atitudes para com o dinheiro e o gasto, uma mensagem ambivalente de sacrifício e indulgência. No entanto, estas crianças revelam também um sentido de vivência comunitária das práticas de consumo e de poupança, e uma orientação para a solidariedade, que mostra que a investigação sobre estes temas ainda deverá considerar outras abordagens. Interessará conhecer em que medida as representações e práticas das crianças têm suporte e continuidade no futuro – nas vidas dos futuros adultos e nos interesses dos sociólogos.

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Referências

Anderson, C.L. e Nevitte, N. (2006), “Teach your children well: values of thrift and saving”, Journal of Economic Psychology, vol. 27, 2, pp. 247-261.

Cook, Daniel Thomas (2008), “The missing child in consumption theory”, Journal of Consumer Culture 8:219-243.

Furnham, Adrian e Argyle, Michael (1998), A Psicologia do Dinheiro, Lisboa, Sinais de Fogo.

John, Deborah Roedder (1999), “Consumer Socialization of Children: A Retrospective Look at Twenty-five Years of Research”, Journal of Consumer Research, 26(3): 183–213.

Martens, Lydia; Southerton, Dale; Scott, Sue (2004), “Bringing Children (and Parents) into the Sociology of Consumption. Towards a Theoretical and Empirical Agenda, Journal of Consumer Culture”, 4(2): 155-182.

Pugh, Allison J. (2004), “Windfall Child Rearing. Low-income care and consumption”, Journal of Consumer Culture, 4(2): 229–249

Pugh, Allison J. (2011), “Distinction, boundaries or bridges?: Children, inequality and the uses of consumer culture”, Poetics, 39:1–18.

Ribeiro, Raquel Barbosa (2012), “Consumo e poupança infantil: diferenças por contexto socioeconómico" in Atas do VII Congresso Português de Sociologia, Lisboa: APS. ISBN: 978-989-97981-0-6.

Ruckenstein, Minna (2010), “Time scales of consumption: children, money and transaccional orders”, Journal of Consumer Culture, 10:383-403.

Zelizer, Viviana (2002), “Kids and commerce”, Childhood, 9(4), 375-396.

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